Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Resolvi assistir a sessão do filme "Palavra (En) Cantada" no Odeon, no último domingo.
O filme é ótimo. Não sou um conhecedor profundo do trabalho da Adriana Calcanhotto, mas o que conheço gosto muito. Neste filme, pude ouvi-la falar. Foi ótimo ver a insatisfação dela com o debate "letra de música não é poesia". José Miguel Wisnik e Luiz Tatit dão uma aula sobre os momentos da história em que a música brasileira passa a flertar mais com a literatura. Arnando Antunes sempre direto e sincero fala sobre sua tranquilidade de conviver com a diversidade cultural. Zeca Baleiro e seu encontro com a Hilda Hist. A Zélia Duncan cantando. O Caetano completamente Caetano na época dos Festivais. Para mim, foi uma aula de produção cultural. No sentido amplo.
Enquanto me recordo do Jorge Mautner cantando Maracatu Atômico, do Lirinha falando "que a poesia está além da estrutura", do Lenine falando da verdade do trovador medieval presente nas fontes da cultura brasileira que inspiram o seu trabalho, compartilho com vocês uma pergunta feita pelo escritor Férrez: porque não se inclue um livro na cesta básica?
Essa frase não para de ecoar na minha cabeça. Fiquei curioso para saber quem era este tal de Férrez.
Este é o primeiro material que encontro dele no youtube, onde fala outras idéias muito interessantes.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtoindependente.com)
Mora no RJ ou está de passagem pela cidade? Quer aproveitar para melhorar sua formação como produtor cultural independente?
A dica é levantar cedinho AMANHÃ, dia 26 de julho de 2009 e ir até o centro RJ assistir "PALAVRA (EN) CANTADA", de Helena Soldberg, no cinema Odeon Petrobras, às 9h. De metrô é só descer na estação cinelândia.
Segue a sinopse do filme, extraída do site do Grupo Estação
Em um país com uma forte cultura oral como o Brasil, a música popular pode ser a grande ponte para a poesia e a literatura. O interesse em promover o debate e a reflexão sobre esse tema foi o ponto de partida do documentário Palavra (En)cantada que percorre uma viagem na história do cancioneiro brasileiro com um olhar especial para a relação entre poesia e música. Dos poetas provençais ao rap, do carnaval de rua aos poetas do morro, da bossa nova ao tropicalismo, Palavra (En)cantada passeia pela música brasileira até os dias de hoje, costurando depoimentos de grandes nomes da nossa cultura, performances musicais e surpreendente pesquisa de imagens.
O filme conta com a participação de Adriana Calcanhotto, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, BNegão, Chico Buarque, Ferréz, Jorge Mautner, José Celso Martinez Correa, José Miguel Wisnik, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Lenine, Luiz Tatit, Maria Bethânia, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, Tom Zé e Zélia Duncan. Imagens de arquivo resgatam momentos sublimes de Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Tom Jobim. (Faixa etária sugerida: acima de 12 anos.)
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Aprofunde a sua formação como produtor cultural.
Assista o documentário "Encontro com Milton Santos", de Silvio Tendler, que apresenta um dos maiores intelectuais humanos do Brasil falando educação, desenvolvimento, globalização e direitos humanos.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
A liberdade quase ilimitada no uso da internet tem causado polêmica em vários setores da sociedade. É importante que os produtores culturais independentes reflitam sobre este tema.
Assista a entrevista com Gilberto Gil comentando este assunto:
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Seguindo a minha visão de que temos que trabalhar a divulgação do nosso trabalho com os recursos que temos, peguei as imagens do lançamento independente do livro "Aprenda a Organizar um Show", um método para produção de shows musicais voltado para músicos e produtores iniciantes, e me aventurei no Windows Movie Maker.
Este é o primeiro vídeo que foi para o youtube: depoimento da jornalista e produtora cultural Thais Aragão, que conheci no Mercado Cultural de Salvador, em 2005.
Desde o lançamento de "Aprenda a Organizar um Show" no site "Overmundo" em 2007 já foram feitos 93.034 downloads dos fascículos e 2.342 downloads da coletânea disponível no site "Pop up!" do jornalista Bruno Nogueira.
Mais de 9.300 pessoas já acessaram o conteúdo desta publicação, sem contar com as pessoas que lêem diretamente aqui no blog.
Aprenda a Organizar um Show é um método para produção de shows musicais voltado para músicos e produtores iniciantes, lançamento da editora Imagina Conteúdo Criativo.
A revista Bravo do mês de julho traz uma entrevista com o ator Selton Mello, feita por Armando Antenore, com foto de Ludovic Carème.
O conteúdo é ótimo.
Destaco alguns pontos importantes:
- porque resolveu priorizar a carreira cinematográfica; - preocupação com o seu sustento; - geração de renda; - reflexão sobre qualidade de vida: a chamada da matéria diz: "cuidei melhor dos personagens do que de mim. Protagonista de três filmes lançados recentemente, Selton Mello se consolida como o cara do cinema brasileiro e admite que, nos últimos anos, deu mais atenção ao trabalho que à saúde".
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Recebi da Thamires Andrade, da Webcitizen, a dica de que o Governo de Minas Gerais inaugurou em seu blog a coluna "Orgulho de Minas", atualizada semanalmente, para celebrar seu maior patrimônio: o povo mineiro.
Transcrevo abaixo a primeira entrevista na íntegra.
Orgulho de Minas: Romulo Avelar
Romulo Avelar/foto: Guto Muniz
Romulo Avelar é produtor e gestor cultural, viaja todo o Brasil dando cursos e palestras sobre o tema. É assessor do Grupo Galpão e do Grupo do Beco, e já passou por várias empresas como a Fiat e MBR, foi superintendente de cultura de Contagem, diretor de promoção da Fundação Clóvis Salgado – Palácio das Artes e presidente da Comissão Técnica de Análise de Projetos da Lei de Incentivo à Cultura. Romulo é autor do livro “O Avesso da Cena – notas sobre produção e gestão cultural”, da editora Duo Editorial, realizado com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Com muito para ensinar e opinar sobre o tema, ele falou em entrevista como anda o setor cultural no país, o que melhorou e o que ainda precisa caminhar.
Por que escrever um livro sobre gestão cultural?
Estudei na primeira escola de produção cultural que surgiu no Brasil, a Ecoar, no Rio de Janeiro. E sempre percebíamos a falta de bibliografia na área. Trabalhávamos muito com recortes de jornal, mas não tinha muita informação. Acho que com o tempo avançamos com os textos de marketing cultural, política cultural etc. Mas a prática da produção, o dia-a-dia quase não existia. Sempre dei cursos de gestão cultural e vivia dizendo que alguém precisava escrever sobre o assunto… Até que me perguntei se eu mesmo não podia passar isso para um livro. Fiquei cinco anos escrevendo, desde 2003.
E como chegou a esse formato de entrevistas e detalhamentos da prática?
Primeiro fiz um esqueleto com o que eu achava importante relatar. Tentei registrar todas as experiências que tinha e fui preenchendo lacunas com entrevistas de profissionais da área. Ao todo foram 53 pessoas de diferentes estados. A proposta é que fosse um livro com olhar prático, por isso inclui planilhas, roteiros de produção, check-list, mapas de palco, luz etc. Mas que não fosse simplesmente um manual. Há no texto uma visão crítica, o que penso sobre a área e os problemas que enfrentamos. Fiz questão de dar esse foco. Escrevi pensando nos alunos dos cursos que ministrei, pessoas que encontram dificuldade e dúvidas no dia-a-dia. Muita gente que tenta produzir pelo interior do país, mas com pouca experiência prática. E também para os leigos, achava importante apresentar para as pessoas esse universo da produção, como é a gestão de um teatro, a produção de um grupo ou de um CD, por exemplo.
Capa do livro "O avesso da cena", criada por Fábio Batista e Martuse Fonaciari
Você esperava esse retorno do livro?
Para minha surpresa, muitos profissionais com experiência na área têm lido o livro e comentado. Não era esse o foco inicial, mas foi uma boa surpresa. Essa é uma área que vem crescendo muito, vários cursos estão surgindo em todo país, em todos os níveis de graduação, mestrado, doutorado etc. Acabei rodando vários estados brasileiros dando cursos e palestras. Estive no Ceará, São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Mato Grosso, Rondônia, Acre, Roraima e daí por diante. Em Minas Gerais, fui a várias cidades. Há uma grande carência de informação sobre o assunto. E essa é uma área que está crescendo muito rapidamente e faltam profissionais qualificados. Por isso, é fundamental que haja uma profissionalização. É um grande campo de trabalho.
E qual o principal questionamento das pessoas dentro desse tema?
A maior preocupação é com a captação de recursos. Mas eu sempre tento puxar para outro lado a conversa. As pessoas estão excessivamente focadas na capacitação de recursos, mas o desafio está na gestão. Falta habilitação em gestão. Recursos são mal investidos ou se perdem. A área cultural precisa se apropriar de ferramentas de administração como planejamento estratégico, logística, gestão de qualidade, marketing de relacionamento etc. Estamos lidando com uma empresa que precisa ser bem gerida. Acho que muita gente ainda acha que tudo acontece como num passe de mágica. Olham só o espetáculo e não enxergam a legião de anônimos que está nos bastidores.
Os grupos ainda têm profissionais que acumulam funções?
Sim, os menores têm um produtor que acumula isso. No livro faço uma distinção do produtor, que vai trabalhar o produto, a linha de frente do espetáculo. E o gestor, que é a retaguarda, o planejamento, a relação com o público. Isso ainda não é uma realidade, mas acho necessário.
As leis de incentivo a cultura são a base do setor. Quanto disso é bom e quanto é negativo?
Sim, costumo dizer que o setor está ancorado nas leis de incentivo. O que é positivo, no sentido de que elas injetaram recursos na cultura que diferentemente talvez não existissem. O que possibilitou a expansão que estamos acompanhando. O delicado é que o Estado entrega para a iniciativa privada a decisão do que será produzido ou não. O que é uma grande distorção. Acho importante a existência de fundos culturais que também beneficiem os pequenos grupos. As empresas tendem a investir no que está dentro da lógica do mercado. O Estado pode distribuir melhor, inclusive geograficamente, os recursos.
Você diz que além de características técnicas, o bom gestor cultural precisa ter sensibilidade com o que o cerca. Isso seria o que?
É preciso fortalecer a cena local. Temos um país com imensa diversidade cultural e precisamos de gestores e produtores culturais que tenham sensibilidade para valorizar o que existe do lado deles. Temos uma certa massificação da cultura. Precisamos de profissionais que saibam identificar as riquezas locais e ressaltar essa diversidade.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Após falar na primeira semana de julho sobre a importância do prazer na produção cultural, tema que particularmente mexe muito comigo, parei de escrever por uma semana e refleti sobre o assunto.
Tentei lembrar o que eu fazia (e faço) para driblar as dificuldades e atingir os meus objetivos. Percebi que uma das alternativas é não aceitar cegamente o que as pessoas me falam sobre o setor cultural. Procuro sempre investigar as informações que encontro. Numa destas investigações, cheguei até o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Trata-se de uma entidade privada sem fins lucrativos que tem como missão promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável dos empreendimentos de micro e pequeno porte.
O que tem a ver empreendimentos SEBRAE com produção cultural independente? Anote bem em sua agenda: tudo. Uma parcela considerável dos projetos e ações culturais que acontecem no país integram os 14,8 milhões de micro e pequenas – 4,5 milhões formais e 10,3 milhões informais – que respondem por 28,7 milhões de empregos e por 99,23% dos negócios do país. Toda vez que você quer fazer um show e pede apoio cultural para que um restaurante forneça alimentos e bebidas para o camarim, você está entrando em contato com uma pequena empresa. Toda vez que você vai ao escritório de um empresário ou produtor cultural, você está entrando em contato com uma pequena empresa. Toda vez que você, mesmo estando trabalhando no que não gosta, gasta o seu tempo pensando em como poderia abrir um negócio em que pudesse trabalhar 100% do seu tempo com cultura, você está pensando na palavra "empreendimento".
Chegar até o SEBRAE é muito mais fácil do que a gente imagina. Comece pelo site. Ao digitar www.sebrae.com.br você se depara com esta tela:
Para começar, leia um pouco sobre o trabalho do Sebrae clicando em "institucional".
Depois, clique em "setores" e selecione "cultura e entretenimento".
Aqui você poderá navegar e acessar muitas informações importantes sobre o setor e o cenário atual da cultura no país.
Há mais informações. Mas o importante é dar o primeiro passo. Comece a ler, conheça mais sobre o setor cultural e visualize novas possibilidades para fortalecer sua ação cultural.
Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego que acreditava que o sentido da vida era o prazer
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
No fim de junho comecei a pensar nos assuntos que iria abordar em julho. Falar sobre a importância que tem para mim sentir prazer ao fazer produção cultural me pareceu ser um bom começo para este mês.
Há duas formas básicas de se fazer produção cultural. Uma é trabalhar para fazer acontecer uma ou mais ações culturais, sem que necessariamente receba dinheiro por esta atividade. A outra é fazer acontecer uma ou mais ações culturais tendo que obrigatoriamente receber dinheiro, pois trata-se da profissão que é a fonte de sustento de sua vida.
Seja na opção "0800", gíria como chamam o que é gratuito aqui no Rio de Janeiro, ou na opção paga, trabalhar com produção cultural é uma escolha. E para esta escolha, podemos ter as mais diversas motivações.
Não julgo as pessoas pelo motivo que as leva a querer fazer produção cultural ou pelo fato de desejarem receber ou não dinheiro por esta atividade. Eu já fiz a minha escolha: produção cultural é minha profissão, pelo menos nesta etapa da minha vida. Para que seja minha profissão, preciso receber dinheiro. Não tenho vergonha e nem culpa desta minha decisão. Aliás, acho um absurdo a discussão recorrente entre as pessoas do meio artístico sobre a necessidade de se ganhar dinheiro. Alguém tem dúvida de que é preciso dinheiro para sustentar a vida de uma pessoa?
Mas há uma questão que me preocupa e que acredito ser importante pensarmos juntos: trabalhar com produção cultural não é sacrificar-se pela arte ou pelos artistas.
As atividades de produtor, administrador ou gestor cultural são recentes no Brasil? Sim. Não existe lei que regulamente especificamente estas profissões? Sim. O mercado está acostumado a contratar pessoas com pouca especialização para estas atividades? Sim. A maior parte da oferta de trabalho é informal ou para profissionais autônomos? Parece que sim. Há pouca oferta de ensino voltado a qualificação das pessoas que atuam nestas atividades? Sim. Tudo isso é verdade. E existem mais obstáculos. Mas isso não são evidências de que optar trabalhar nesta atividade signifique desejar sacrificar-se.
Você acha fácil a carreira de um policial? E de bombeiro? Você acha moleza ser professor? Você pensa que passar a noite acordado varrendo as ruas é uma tarefa simples? Já se imaginou trabalhando dentro de um presídio como agente penitenciário? Já pensou como é o dia-a-dia de quem trabalha num hospital numa unidade de tratamento de crianças com câncer? Você tem noção do que passa uma pessoa que trabalha como agente funerário? E as pessoas que trabalham em plataformas de petróleo em alto mar?
Citei alguns exemplos para que a gente possa visualizar com mais clareza a questão. Todas as profissões possuem dificuldades. Mas com o tempo, muitas pessoas ficam hipnotizadas com o seu cotidiano e tendem a pensar que a sua atividade é pior do que as outras. Invés de tentarem entender o seu momento de vida, justificam para si mesmas que aceitam resignadamente as dificuldades do exercício da atividade de produtor cultural por ser um "sacrifício necessário para que a arte e a cultura sobrevivam". Ledo engano. A arte e a cultura são inerentes ao ser humano e ambas estão em constante mutação. Queiramos ou não, onde existir um ser humano, lá haverá cultura e lá haverá algum tipo de arte.
Outra situação que considero absurda é dizer que se aceita péssimas condições de trabalho pela necessidade de alguém se sacrificar pelos artistas. Sinceramente, mesmo que muitos artistas passem por dificuldades econômicas, situação pela qual passam pessoas de quase todas as profissões, eles não são coitadinhos, não são miseráveis e, para espanto de muitos, não dependem de produtores. Pelo contrário, a maioria dos criadores culturais são pessoas privilegiadas, que podem exercer uma atividade que a grande maioria das pessoas sequer pode sonhar em fazer. Muitos inclusive tem habilidade de exercer sua atividade criativa, fazer sua própria produção executiva e administrar sua carreira. Prova disso é o crescimento do mercado cultural independente.
Assim, fazer produção cultural, para mim, precisa ser tão prazeroso quanto é prazeroso para um compositor fazer uma música. Fazer produção cultural precisa ser tão prazeroso quanto é prazeroso para um intelectual ler um texto. Fazer produção cultural precisa ser tão prazeroso quanto é prazeroso para um dançarino movimentar o seu corpo.
Sentir prazer no trabalho, para mim, é importante. Nunca aceitei que para trabalhar com produção cultural é preciso aceitar como normal estar estressado e trabalhando com gente estressada. Nunca aceitei que ser produtor cultural, que é uma profissão que eu escolhi, é esquecer o que eu estudei e estudo para concordar cegamente com orientações equivocadas, sem nenhum fundamento técnico, vindas de profissionais autoritários, sem formação, só porque possuem mais tempo de atividade do que eu. Nunca aceitei que trabalhar com produção é ter que tolerar produtores, técnicos e artistas mala sem alça "porque é assim na área da cultura". Nunca aceitei a visão reduzida de que ser produtor cultural é ser babá de artista ou digitador de formulário de leis de incentivo.
Adoeço quando o meu trabalho se converte somente em desprazer. Sabe qual é o termômetro? Perceber que não consigo "desligar" do trabalho: fico encanado tentando resolver, no meu tempo livre, problemas do dia-a-dia.
Para que eu sinta prazer no trabalho que eu faço, procuro, dentro do possível e dos meus limites, parar de tempos em tempos e avaliar o meu momento de vida. Perceber como estou, como estão as minhas relações com quem trabalho, como está o contexto onde estou realizando minha atividade. Mesmo que existam assuntos urgentes que pareçam impedir que eu dê uma parada para pensar, eu corro o risco. Dou uma pausa e penso. A pausa não é necessariamente parar de trabalhar. A pausa é priorizar usar o meu tempo livre para refletir e se o que estou fazendo eu quero para mim.
Por fim, o que quero para mim, por mais que eu goste, precisa de equilíbrio. Ser produtor cultural independente não pode ser uma neurose do tipo "meu trabalho ou minha carreira é tudo". Ser produtor cultural independente é aprender a me desenvolver numa atividade que dialoga com as outras atividades da minha vida. No meu ritmo.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Para quem estiver no RJ, vale a pena conferir o lançamento do primeiro número do Anuário de Estatísticas Culturais, obra organizada pela Funarte em parceria com a Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura.
Confirma a programação (clique na imagem para ampliar)
Alê Barreto ministrando o curso Aprenda a Organizar um Show no FISL 10
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Nossos medos muitas vezes são obstáculos para que a gente realize o que nós sabemos que temos capacidade de realizar. Esta foi a lição que aprendi ao participar do 10º Fórum Internacional do Software Livre em Porto Alegre.
Sexta, dia 26 de junho, jantei com amigos e no meio da conversa, um deles me disse: "sabe, este método seu para shows é muito bacana, mas ninguém usa". Falei para ele que a maioria das pessoas não usa porque é um conhecimento novo. Mas fiquei pensando. De repente me senti um pouco inseguro. E se as pessoas realmente não quiserem aprender a organizar um show? E se as pessoas quiserem fazer o show de forma caótica? Não concluí nada. Mas continuei inseguro.
No sábado, dia 27 de junho, cheguei no Centro de Eventos da PUC/RS e fiz um passeio pelos estandes do Fórum. Encontrei muita gente com laptops. Computadores por toda parte. Projeto sociais muito bacanas, como o Software Livre Educacional, o estande do Ponto de Cultura Minuano, Rede Mocambo, enfim, uma diversidade de grupos humanos e de ações, todas com a idéia de compartilhamento do conhecimento.
Fui me informar onde seria minha palestra e percebi que era um auditório fora do Centro de Eventos. Como eu já estava com aquela sensação da insegurança na sexta, pensei: "Caramba, não vai ir ninguém".
No caminho para a sala, a minha mente não dava trégua: "não vai ir ninguém", "isso é um evento para o pessoal da informática", etc. Quando cheguei lá, tinha uma pessoa na sala. Fiquei aliviado.
Ao começar a preparar a exibição da apresentação em PDF num telão, notei que começaram a chegar pessoas na sala. Quando me dei conta, tinha vinte e duas pessoas!
Propus que todos nos apresentássemos uns para os outros. Tinha gente do RS, Macapá, Brasília, São Paulo, Campinas e Espírito Santo. Apresentei para este público os tópicos que iríamos trabalhar:
Depois, falei sobre as etapas de um show: pré-produção, produção e pós-produção.
Concluída esta etapa, partimos para a outra parte do curso.
Apresentei aos presentes como foi construído o livro "Aprenda a Organizar um Show"
e os resultados obtidos até hoje com esta ação de empreendedorismo cultural.
Por fim, apresentei sugestões que considero importantes para multiplicar uma ação cultural.
Se eu tivesse ido atrás dos meus medos, talvez nem tivesse comparecido. Mas eu fui. E vi que educação para a produção cultural não é só uma boa idéia. É realmente uma necessidade. Caso contrário, ninguém viria, ninguém baixaria o livro, ninguém visitaria este blog. E é exatamente o contrário. Cada vez mais as pessoas procuram estes conteúdos. Por isso eu vou persistir no meu projeto.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Este post seria ainda sobre software livre, mas lembrei de repassar aqui a dica que recebi da Mirane Albuquerque, do Ministério da Cultura.
Recursos públicos disponibilizados através de editais são uma boa opção para quem está buscando recursos para dar sustentabilidade as suas ações culturais.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Há muitos mitos ainda sobre as vantagens e desvantagens de se utilizar o software livre, apesar dele estar sendo amplamente utilizado na sociedade. Quase todo mundo já deve ter encontrado em algum computador o buscador Moozila Firefox. É software livre. Também já deve ter entrado em algum cyber ou lan house e aberto um arquivo do word no Open Office. É software livre.
Pensando nisso, preparei uma pequena série de posts especiais intitulada "Como o software livre pode facilitar produção cultural independente", com o objetivo de mostrar de forma prática como o mesmo pode ser utilizado. Não tenho a pretensão de esgotar o tema. Quero que os novos produtores culturais independentes aprofundem a pesquisa e descubram, a partir destas idéias, novos caminhos e novas possibilidades.
Como o software livre pode facilitar a produção cultural independente - conceito
Acredito que o maior ponto em comum que existe entre o software livre e a produção cultural é a questão da liberdade de expressão.
É importante percebermos que no sistema capitalista que vivemos somente podemos ter liberdade de expressão quando construímos condições sustentáveis para que isso aconteça. Sim, estou falando de dinheiro. Software livre não quer dizer necessariamente software gratuito. Trabalhar para que uma ação cultural aconteça não quer dizer necessariamente que fazer produção cultural é algo gratuito.
O Movimento Software Livre apresenta quatro liberdades relacionadas ao uso do software livre:
- liberdade de uso para qualquer finalidade;
- liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades. Aceso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade;
- a liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie. Novamente o acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade;
- a liberdade de redistribuir cópias das alterações feitas.
Assista o vídeo do professor Sérgio Amadeu falando sobre Software Livre
Se analisarmos, estas quatro liberdades se aplicam ao conhecimento de produção cultural independente. Ou seja, todo o produtor deve ter a liberdade de:
- usar o conhecimento de produção cultural para qualquer finalidade, para produzir as mais diversas ações culturais;
- estudar o conhecimento de produção cultural existente e adaptá-lo as suas necessidades. Para isso, é importante se estruturar formas de oferecer acesso a este conhecimento;
- aperfeiçoar os conhecimentos de produção cultural e liberá-los para que toda a sociedade se beneficie. É preciso pensar como fazer isso e garantir sustentabilidade para as pessoas que se propõe a fazer isso.
- redistribuir cópias dos conhecimentos de produção cultural aperfeiçoados.
Muitos profissionais da área cultural acham que disponibilizar conhecimentos de forma gratuita irá prejudicar sua sustentabilidade. E muitos profissionais veteranos têm medo de perder poder e vantagem competitiva no mercado cultural.
Acontece que o conhecimento não é algo estático. Está sempre em movimento e expansão.
Veja este exemplo: o conhecimento de como pintar uma parede, trocar a resistência de um chuveiro ou fazer um determinado doce é livre. Nem por isso a pessoas deixam de contratar pintores e eletricistas ou de ir a uma padaria para comprar uma torta.
A complexidade da vida contemporânea leva as pessoas a procurarem pessoas especializadas para a realização de atividades para as quais não possuem tempo disponível.
Assim como você não vai querer fazer tudo que precisa para a sua vida, ou seja, ser seu próprio pedreiro, faxineiro, policial, médico, dentista, etc, você também não tem tempo de atender a todos que procuram você.
Há um mito de que se alguém é adepto da liberdade do conhecimento é obrigado a atender todo mundo que chega e lhe faz uma pergunta. Meu blog tem crescido e hoje recebo 3.000 visitas por mês. Imagine se cada uma destas 3.000 pessoas viesse me exigir fazer isso. Eu teria tempo para fazer mais alguma outra coisa na minha vida?
A questão é entender o conceito e praticá-lo com equilíbrio.
Sugestões para praticar o conceito de "software livre" na produção cultural independente:
- após concluir um trabalho de produção cultural, organize uma pasta, física ou virtual, com todos materiais utilizados para organizar o projeto. Será a sua "memória". Analise os resultados: o que deu certo e o que pode melhorar;
- procure encontrar novas fontes de conhecimento para melhorar a sua forma de trabalho. Muitas vezes você não irá encontrar o conhecimento específico para sua atividade, mas poderá adaptá-lo a sua necessidade. Exemplo: está procurando um livro sobre produção de espetáculos teatrais e só encontra de shows musicais. Analise. Há muita coisa parecida;
- compartilhe o conhecimento. Descubra diferentes formas de fazer isso, na forma de blog, newsletter, redes sociais, palestras, cursos, consultorias e publicações;
- encontre maneiras sustentáveis de distribuir seus conhecimentos. Se você não pode passar o dia respondendo perguntas via e-mail, publique conteúdos na internet que estarão acessíveis para muitas pessoas.
Encontre a sua maneira de ser "software livre" na produção cultural.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Fui convidado para ministrar o curso "Aprenda a Organizar um Show" no dia 27 de junho no 10º Fórum Internacional do Software Livre, na PUC, em Porto Alegre, RS. Não é por acaso. É uma construção.
A primeira vez que ouvi falar de software livre foi em janeiro de 2003. Lá estava eu no Fórum Social Mundial dando os primeiros passos rumo ao meu sonho de trabalhar com cultura. Era voluntário da Comissão de Cultura que organizava a programação cultural do Acampamento Intercontinental da Juventude. Porteiro do cinema!
Num dia, vi que haviam alguns computadores sobrando, numa espécie de cyber que havia sido montado para quem estava trabalhando nas diferentes comissões que organizavam as atividades do acampamento. Ao sentar no computador me deparei com a figura emblemática do pinguim, símbolo do Linux.
Na época, confesso, achava que havia um certo extremismo na forma como alguns ativistas defendiam a idéia dos software livre. Os caras olhavam horrorizados para quem utilizava os programas do Windows, como se você fosse um herege. Como não gosto de nada que tentam me empurrar guela abaixo ou só aderir porque é novo, moderno, "hype", resolvi amadurecer o conceito.
Voltei a me encontrar com o assunto software livre no Mercado Cultural de Salvador, em dezembro de 2005. Lá assisti uma palestra sobre o Programa Cultura Viva e tive conhecimento de que o Ministério da Cultura havia distribuído aos Pontos de Cultura um kit multimídia com software livre. Então comecei a perceber o assunto com mais clareza. Ninguém estava me obrigando a deletar todos os meus textos em Word e planilhas em Excel. Pelo contrário, estavam mostrando que o software livre era um grande aliado no movimento de compartilhamento de conteúdos culturais no Brasil e no mundo.
Na medida que fui percebendo que o software livre poderia contribuir para fomentar o desenvolvimento da produção cultural, passei a utilizar o conceito em alguns trabalhos. O primeiro deles foi a comunicação do lançamento do Cd independente "Assim Falou Bataclan", da Bataclã FC, de Porto Alegre, em 2006. Cientes da dificuldade de divulgarmos o trabalho da banda em muitos veículos de comunicação, que exigiam pagamento de "jabá", eu e os músicos e compositores Richard Serraria e Marcelo da Redenção, articuladores do Coletivo TARRAFA que produzia a banda, decidimos buscar um caminho alternativo para difusão da música. Pensamos na internet. A partir daí nos aproximamos de pessoas do Movimento Software Livre e logo decidimos apoiar a realização do 8º Fórum Internacional Software Livre – fisl8.0.
Em 2007 a Bataclã FC foi convidada a abrir o 2º Festival Multimídia de Cultura Livre do Brasil, dentro da programação do Fórum. Lá estávamos nós aprendendo a difundir o nosso trabalho cultural junto com o Mombojó, DJ Dolores e os VJs Pixel e Salsaman, artistas que entendem a importância do software livre.
Em 2008, ajudei a promover neste blog a idéia do que é o software livre, o Fórum Internacional, o lançamento do livro com as idéias do seminário e o que é o Creative Commons.
Toda esta trajetória têm sido muito importante na minha formação como produtor cultural independente.
Acredito que o compartilhamento do conhecimento, de forma sustentável, é uma das principais ações necessárias para a educação das pessoas para a produção cultural.
Cena da peça "Frida: uma mulher de pedra da luz à noite"/divulgação
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Comecei a pesquisar publicações relacionadas a prática da produção cultural em 2003, ano em que comecei a trabalhar como produtor cultural independente.
Na época, quase não existiam obras sobre o assunto no Brasil. Os raros conteúdos que encontrava, eram genéricos. Isso não é uma reclamação. É uma constatação. O fato de uma obra ser genérica não quer dizer que seu conteúdo não é de qualidade.
A questão é que a diversidade que envolve o "fazer cultural" exige conteúdos especializados. Fazer produção executiva na área da música é uma coisa, no teatro é outra, no cinema é outra, e assim por diante.
Sempre tive a curiosidade de aprender mais sobre produção cultural a partir do olhar de alguém que trabalhasse em áreas diferentes da minha. Comecei trabalhando com produção executiva de shows musicais, mas pude aprender muita coisa trabalhando em exposição de artes visuais. Tenho aprendido muito também convivendo com o universo do teatro no Grupo Nós do Morro. Tenho muita vontade de aprender mais sobre a produção de cinema, dança e patrimônio histórico.
Ontem, lendo o blog do Leonardo Brant, tive a grata surpresa de saber que foi lançado um novo livro, escrito por uma produtora cultural que atua na área da dança.
Fui até o site dela e reproduzo abaixo, na íntegra, informações sobre esta publicação e como adquiri-la.
Divulgação
Diário de Produção é um livro que convida o leitor a vivenciar um pouco do complexo universo da produção cultural. Este livro não pretende ser um guia com fórmulas de como fazer. O livro dá a exata noção das áreas, da rotina e das responsabilidades que envolvem a produção cultural.
Através de relatos de sua experiência, a autora conduz o leitor a conhecer este universo e experimentar várias situações vividas na prática. Uma construção crítica e realista sobre a questão da profissionalização do setor da produção cultural.
O Diário expõe, conversando com o leitor, o contexto e as realidades que determinam o fazer no campo da produção e da gestão cultural.
Indicado para iniciantes e profissionais da área cultural, comunicação, marketing, administração, estudantes de gestão cultural, gestores públicos e privados, artistas e público interessado no tema.
Como comprar o livro:
Envie nome completo, endereço e comprovante de depósito para o e-mail carlalobo@joaquinacultura.com.br ou passe um fax para o número 31 3225-5070.
Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)
Um produtor cultural independente, por ser uma pessoa que se ocupa de "fazer acontecer uma ação cultural", deve ser curioso em:
- aprender a interpretar o simbolismo das imagens estáticas ou em movimento e entender seus impactos na audiência.
- perceber como os meios de comunicação de massa, como TV, cinema, rádio e jornais trabalham na produção de significações e como estão organizados;
- entender como apresentadores, escritores e produtores de textos e conteúdos audiovisuais integram contextos particulares e são influenciados por aspectos pessoais, sociais e culturais.
Para que isso aconteça, é necessário que o produtor cultural independente estude conteúdos didáticos de alfabetização para as mídias.
Uma boa opção para debate e estudo é o projeto "Educando para a Mídia".
Desenvolvido por estudantes da disciplina de Projeto Experimental em Jornal do curso de Jornalismo da PUC/RS, o projeto oferece a professores de Ensino Fundamental subsídios para desenvolvimento nos alunos de uma postura crítica em relação à mídia.
O projeto orienta como abordar, em sala de aula, por exemplo, temas como violência, sexualidade, diversidade cultural, jabá e poder.
Mesmo sendo concebido para trabalhar com crianças, que considero muito importante, pois no futuro poderão se desenvolver como produtores independentes com mais amplitude, acredito que este material serve de exemplo para que sejam produzidos materiais didáticos no curto prazo, para educação para a produção cultural de adolescentes e adultos.