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sexta-feira, outubro 15, 2010

Um criador cultural que acredita na organização e no afeto




Por Alê Barreto*


Muita gente acha que escola é assunto somente de professor. Muitos acham que para ser ator é preciso ser jovem. E muitos acham que um criador cultural não pode, não deve ou não tem condições de se organizar, de ser o produtor ou gestor de seu próprio trabalho.

No vídeo acima, o ator que narra a história e que aparece sentado à esquerda chama-se Ruy Cezar. Neste espetáculo ele é responsável pela direção, roteiro, seleção de objetos cênicos e juntamente com Bela Saffe fez a criação e a interpretação.



Ruy Cezar/Foto do site "Produção Cultural no Brasil"

Mas Ruy Cezar não é somente um criador cultural. Em 1982 criou o Instituto Casa Via Magia com a missão de promover a cooperação cultural e o desenvolvimento comunitário, através do estímulo à educação, cultura e da pesquisa pedagógica sistemática, com vistas a contribuir para o auto-conhecimento e formas de expressão individual, assim como para a integração comunitária. Neste Instituto ele trabalha os princípios de interação, cooperação, ética, solidariedade e crítica construtiva.

Conheci ele em dezembro de 2005, na Bahia, quando fui ao VI Mercado Cultural. Apesar de ser ocupadíssimo, foi muito generoso comigo. Me recebeu na Casa Via Magia e durante quase duas horas me falou sobre a importância de se trabalhar em rede e de compartilhar o conhecimento, muito antes de "redes" e "colaboração" virarem moda. Deste dia em diante, passou a ser uma referência na minha formação como produtor cultural independente.

Ruy Cezar é um educador, nasceu em 1956 e é ator, é um organizador da cultura e desempenha um importante papel de articulador de redes culturais.

Assista o vídeo de sua entrevista para o projeto "Produção Cultural no Brasil".

Ruy Cezar from FLi Multimídia on Vimeo.




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* Alê Barreto é administrador, produtor cultural e autor do livro Aprenda a Organizar um Show, primeira publicação disponibilizada de forma livre e gratuita no Brasil sobre a tecnologia de produção de shows. Trabalha novos conceitos e oferece serviços diferenciados para empresas, produtores, grupos culturais e artistas. Divulga reflexões sobre seu processo de trabalho no blog Alê Barreto e valoriza encantadoras mulheres.

21-7627-0690 (Rio de Janeiro)
alebarreto@produtorindependente.com

sexta-feira, abril 09, 2010

Álbum Virtual Trama: música gratuita que paga quem produziu a música



Por Alê Barreto
Administrador, produtor cultural independente e palestrante


Em janeiro, publiquei o post "Afinal, a música de ser paga ou gratuita?" no qual comentei que as visões apocalípticas sobre entrega de conteúdo musical gratuito estavam em processo de mudança. Citei inclusive o artigo do João Marcelo Bôscoli, fundador e presidente da Trama Music Group, publicado no blog Acesso, no qual ele explica como funciona o modelo adotado por sua gravadora.

Essa tendência de disponibilizar conteúdo de forma gratuita é apontada no livro "Free: The Future of a Radical Price" do polêmico Chris Anderson.



Como presto assessoria para a Pata de Elefante, estou tendo a oportunidade de acompanhar mais de perto este novo modelo de negócios. A Trama está lançando hoje "Na Cidade", o novo trabalho da banda, através do Álbum Virtual.


Leia mais no Overmundo...


O Álbum Virtual é um site onde o conteúdo é disponibilizado gratuitamente sem proteção (DRM). Isso permite que você baixe a música e deixe no seu computador, copie para CD, pen-drive ou em qualquer outra mídia.

O conceito é o seguinte:



Fazendo uma breve análise deste conceito, a partir da obra “Administração de Marketing” de Philip Kotler, mestre em economia pela Universidade de Chicago, doutor em economia pelo MIT, pós-doutor em matemática pela Universidade de Harvard e pós-doutor em ciência comportamental pela Universidade de Chicago, percebe-se que o Álbum Virtual Trama foi cuidadosamente planejado, abrangendo a maior parte dos fatores que constituem o escopo do marketing:

o bem: disponibiliza fonogramas (arquivos eletrônicos de música gravada);

o serviço: oferece aos clientes um “cardápio” musical amplo, que valoriza a diversidade cultural;

a experiência: possibilita através de uma interface amigável que o público “mexa no Cd”: é possível ver a capa, contracapa e folhear o encarte;

evento: o lançamento virtual passa a inaugurar uma nova fase no conceito de evento, antes visto apenas como algo presencial;

lugares: o bem e o serviço podem ser acessados em qualquer lugar do planeta que se tenha conexão com internet;

propriedade intelectual: foi cuidadosamente planejada, de maneira que o artista tem seus direitos morais e patrimoniais respeitados;

informações: para baixar as músicas, é necessário cadastrar-se. Isso permite que a Trama estabeleça um processo contínuo de aprendizagem do comportamento de consumo dos internautas que acessam o Álbum Virtual.

ideia: o produto e serviço estão estabelecidos numa plataforma virtual que entrega o conceito/benefício “de graça pra você e remunerado pro artista".


Indo para a prática: como baixar um disco no Álbum Virtual Trama

Digite no seu navegador http://albumvirtual.trama.uol.com.br/lancamentos e clique no ícone da capa do disco. Uma tela irá se abrir mostrando o álbum da banda e uma barra superior com todas as funcionalidades que podem ser utilizadas.



Para baixar, é necessário se cadastrar no site, mas é um procedimento muito rápido e que vale a pena. Em aproximadamente 3 minutos (bem menos tempo do que você levá-la numa loja física comprando um disco ou CD...) você fica com os arquivos das músicas e pode escutá-las onde quiser.

Leia o release do lançamento do disco.

quarta-feira, março 24, 2010

A importância do diálogo para planejar ações inteligentes e produtivas no setor cultural




Por Alê Barreto
Administrador, produtor cultural independente e palestrante


Um dos maiores obstáculos atuais para o avanço da organização do mercado cultural brasileiro é a falta de diálogo entre os agentes culturais. Isso ocorre por vários motivos. Vejamos dois deles.


Baixa formação para produção e gestão cultural

Muitos profissionais tem somente a formação prática e muitos possuem uma formação teórica em letras, artes, sociologia, filosofia e comunicação. A falta de conhecimentos em economia, administração, projeto, novas mídias, marketing e gestão de negócios dificulta o entendimento da necessidade de se criar canais de diálogo entre os agentes que atuam no mercado cultural.


Medo da concorrência

Seja por superstição ou por falta de entendimento da dinâmica de um mercado, muitas pessoas acreditam que a melhor maneira de se avançar é evitar falar sobre o que está fazendo ou de suas experiências passadas.


O diálogo

Praticamente todos os avanços que tive em minha carreira ocorreram a partir do momento que percebi que o diálogo é essencial na carreira de um produtor cultural independente.

Por isso, procuro sempre avaliar o meu aprendizado do diálogo através das seguintes perguntas:

- estou mantendo o hábito regular de dialogar com profissionais do setor onde atuo?
- meus diálogos são produtivos?
- o que estou fazendo com as informações que troco nestes diálogos?

Faça o mesmo. Crie seu check list para aprimorar sua capacidade de dialogar e mude a forma de se colocar no mercado cultural.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Mercado audiovisual e produção independente



Entrevista com Leopoldo Nunes, por Guilherme Jeronymo, publicada no site do Observatório do Direito à Comunicação


Leopoldo Nunes é um dos diretores da Agência Nacional de Cinema (Ancine), órgão responsável por regulamentar o mercado audiovisual nacional. Aos 41 anos de idade, o paulista passou pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, junto a Orlando Senna, e pelo cargo de Diretor de Patrocínios da Secretaria de Comunicação Institucional da Secretaria Geral da Presidência da República. Cineasta e antigo cineclubista, teve sua indicação à Ancine defendida pelo Ministro Gilberto Gil, e seu mandato expira em 2010. Tem ainda um histórico de militância nas categorias de base do cinema brasileiro, com duas passagens pela Associação de Documentaristas de São Paulo (ABD-SP) e duas outras pela ABD nacional, de onde foi para a diretoria do Congresso Brasileiro de Cinema, entre 2000 e 2002, e de lá para o Ministério da Cultura, no começo da gestão Gil.

Nessa entrevista, Nunes fala dos mecanismos utilizados pela Ancine para fomento à cadeia produtiva do cinema, do momento do cinema nacional, da relação entre a produção independente com a TV, de Ancinav e da digitalização das mídias audiovisuais.

Parece um feliz chavão dizer que o cinema nacional atravessa uma boa fase. Tal aquecimento, representado pelo número de produções, por seu reconhecimento internacional, pelo reconhecimento do público nacional e pelo aumento dos orçamentos das produções. Isso é só uma bolha, um momento, ou esse ritmo vai se manter?
Vai se manter, sim. Tanto o governo quanto o setor cinematográfico estão empenhados neste sentido. Tudo o que estamos vendo aí, que dá sustentação a este momento do cinema nacional, surgiu de uma relação entre o governo e o setor. Hoje o investimento anual, entre estatais, Ancine e Ministério da Cultura, através de editais e de leis de incentivo, está em torno de 200 milhões de reais. E neste universo, a produção é o melhor problema, pois hoje temos produção e agora o grande problema é a presença e circulação dos filmes nas salas. São necessárias agora políticas de difusão em parceira com a televisão aberta e fechada e o setor de vídeo, além de apoio às estruturas de distribuição e exibição de filmes em salas para levar o cinema nacional a um novo patamar.

Neste sentido, há também a novidade do aporte de recursos reembolsáveis para este mercado, através do BNDES. Por isso que este momento não só vai ser duradouro como é um momento de crescimento do mercado, tanto para os investimentos, diretos e indiretos, como através dos mecanismos criados para fomento, e também através das políticas, já discutidas, de fortalecimento da distribuição independente.

É possível “criar” um ambiente assim sem uma Ancinav?
Sim. É certo que nós estamos circunscritos à nossa competência de atuação, com atividades que dizem respeito ao auxílio à circulação, ao fomento e à fiscalização das atividades ligadas a produção de conteúdo audiovisual, em especial o cinema e atividades correlatas como a publicidade, mas é possível.

Em se definindo o que é o conteúdo brasileiro, em se definindo o que é produção independente, temos uma questão maior apenas que é a discussão da Lei Geral de comunicações, mas, dentro da nossa competência, é possível atuar e expandir bastante o mercado.

É possível expandir em um mercado que se sabe concentrado?
Sem dúvida há uma concentração muito grande de títulos, das majors, e uma briga muito intensa pelo espaço de tela. A gente tem de entender que as majors têm mudado sua estratégia no mercado mundial e que a gente tem de lutar por uma presença maior do nosso cinema.

Nós temos também de sair do cerco das duas mil salas, ampliar o mercado e aumentar a demanda por títulos brasileiros. Recentemente, dois ou três títulos distribuídos pelas majors tomaram todo o mundo. Ao mesmo tempo em que isto ocorre, há uma reação e as cinematografias nacionais têm se colocado contra isso. Nós estamos com uma produção consolidada, mas com uma série de distribuições aquém do que poderia ser feito. Mas, daqui até 2010 nós teremos uma participação crescente, também com o crescimento do mercado.

Vale mais para o Brasil tornar-se uma Bollywood ou uma Nigéria?
Nem uma coisa nem outra. O Brasil tem uma característica geográfica e nacional específica. No caso da Índia ela tem um grande mercado, também no Oriente, ali entre a própria Índia e todos aqueles “Istãos”, Curdistão, Paquistão, Afeganistão e afins. Ela tem uma característica própria, um nicho em uma grande região do planeta. No caso da Nigéria, é uma experiência nova, baseada na replicabilidade do meio digital e na ausência de uma indústria consolidada.

Aqui temos um setor audiovisual muito industrial mesmo, temos uma experiência própria, um grande mercado, mesmo com a escassez atual, as duas mil salas de exibição. À exceção do México, a América Latina tem uma organização que torna a produção local e a distribuição bem mais difícil do que no nosso caso. Nosso cinema é produzido ao modo da indústria ocidental, e temos potencial para atingir tanto o mercado interno e externo. A Argentina tem tido uma boa experiência internacional, mas falha ao atender o mercado local. Por isso que a nossa experiência é única. Como Gustavo Dahl diz, jabuticaba só tem no Brasil. É meio assim, a nossa experiência é muito própria, nós não pretendemos copiar nenhum outro modelo, pois nosso modelo é próprio, baseado em nossa própria história.

E qual a visão da Ancine em relação às políticas de financiamento e apoio do BNDES no setor, e como a agência pretende atuar em relação a este “reforço”? Investimentos como este são o sinal de que é possível vislumbrarmos uma estruturação do mercado cinematográfico nacional?

Contribuímos desde o começo para a formulação desta política, e o banco esteve muito aberto neste sentido. Nós só tínhamos fundos perdidos [investimentos que utilizavam fundos perdidos, com recursos que não voltam para os cofres públicos], através das leis de fomento, mas há setores que podem utilizar o capital de risco e nesse sentido são políticas absolutamente complementares, pensando as políticas do MinC, da Ancine, da Petrobrás e do BNDES.

Agora no BNDES até os produtores, com um bom capital, podem se servir de um recurso com risco, por terem certeza que poderão pagar, e toda esta cadeia de fomento está inserida no mesmo projeto, um projeto discutido também com os setores de TV e Cinema. Na TV, você tem ainda uma presença quase insignificante da produção nacional em cinema, mas há mecanismos que podem mudar isso, como a recente mudança em relação ao uso do artigo 1°a da Lei do Audiovisual ou o uso do artigo 3° da mesma lei pela TV. Há ainda ferramentas como o artigo 39, cada vez mais utilizado, para séries como Mandrake, que se tornou referência e produto de exportação. O imposto devido das empresas de TV também pode ser usado neste sentido, e as TVs têm procurado a Ancine no sentido de descobrir como adaptar seus modelos de negócios para utilizar estes impostos.

Esta aproximação das TVs é muito importante?
A presença do filme brasileiro na TV e no vídeo não chega, em valores, a 1% do total no setor. Em relação ao mercado de vídeo, primeiro temos de entender que foram mais de 10 anos sem um órgão regulador. Mas o setor de vídeo é um dos mais rentáveis da cadeia audiovisual, e o mercado explora esta rentabilidade, através da comercialização de produtos estrangeiros, que se apresentam com valores mais vantajosos para os distribuidores do que os produtos nacionais. É um mercado em que não há isonomia. Estamos estudando mecanismos que facilitem essa isonomia, ou então vamos ter de ficar sempre botando dinheiro em nosso cinema, que ficará espremido no mercado de salas de exibição, por falta de regulação e condições isonômicas de competição.

Que tipo de solução diminuiria esse afunilamento?
Algumas soluções: o fortalecimento do distribuidor brasileiro; um fundo setorial para subsidiar uma ou outra ação mercadológica, como subsídio a juros, que estamos tratando como benefício; e o diálogo com o mercado de vídeo, no sentido de facilitar a formação de pactos, e de uma regulamentação a partir destes pactos.

Leia a entrevista na íntegra

sábado, novembro 29, 2008

A Economia da Cadeia Produtiva do Livro


Conteúdo extraído do catálogo de livros do Instituto de Economia da UFRJ



Este trabalho, realizado entre março e outubro de 2004, reúne informações básicas acerca da economia da cadeia produtiva do livro no Brasil e no exterior. Ele resulta de uma encomenda feita pelo BNDES ao Grupo de Pesquisa em Economia do Entretenimento do Instituto de Economia da UFRJ, que alocou seus pesquisadores e consultores para o seu desenvolvimento.

Versões sintetizadas foram apresentadas em 2004 ao longo de diversos eventos promovidos pelas entidades empresariais ligadas ao livro, bem como na Casa de Rui Barbosa, no BNDES e no IE/UFRJ. Em todas as apresentações houve grande recepetividade e interesse diante dos dados e análises formuladas e especial demanda pela divulgação do trabalho como um todo, o que justifica a confecção desta síntese que ora vem a público.

Conheça o livro

sexta-feira, novembro 21, 2008

VIII Mercado Cultural - Participe do Ciclo de Conferências




Ciclo de Conferências - 3 a 6 de dezembro - Hotel Tropical da Bahia


04 de dezembro (quinta-feira)

8h às 9h
Credenciamento

9h às 11h Diversidade da música no mundo
Dubi Lenz – Membro do European Forum (Israel)
Lluc Silvestre – Membro da Área de Criação do Institut Ramon Llull (Espanha)

11h às 13h Diversidade da música latino-americana
Álvaro Montenegro – Saxofonista e flautista do América Contemporânea (Bolívia)
Aquilez Baez – violonista do América Contemporânea (Venezuela)
Lucia Pulido – vocalista do América Contemporânea (Colômbia)
Luis Solar – percussionista do América Contemporânea (Peru)


15h às 17h Criatividade na produção de Festivais – Parte 1
Patrick de Groote – produtor dos Festivais Sfinks, Zomer van Antwerpen e Worldwide Music (Bélgica)


05 de dezembro (sexta - feira)

9h às 11h Música sem palavras
Alejandro Vargas – Músico e Professor do Instituto Superior de Arte de Cuba - ISA (Cuba)
Letieres Leite – saxofonista da Orquestra Rumpilezz (Bahia)
Rajery – Músico (Madagascar)


11h às 13h Distribuição da música no mercado internacional
Bruno Boulay - Bureau Export Musique Française Brésil da Embaixada da França (Brasil)
Christian Mousset - Diretor do Festival Musiques Métisses de Angoulême e gerente do selo Marabi (França)
Philippe Pinet - diretor da Jazz Tour (Uruguai)


15h às 17h Criatividade na produção de Festivais – Parte 2
Patrick de Groote – produtor dos Festivais Sfinks, Zomer van Antwerpen e Worldwide Music (Bélgica)


06 de dezembro (sábado)

9h às 11h Música: Cultura em Movimento
Marinilda Bertolete Boulay - TOTEMusicais, representante do MIDEM para o Brasil e América Latina (Brasil)


11h às 13h Produção da música no mercado brasileiro
André Abujamra - guitarrista e produtor (São Paulo)
Jards Macalé - Compositor, intérprete, violonista, produtor e diretor musical (Rio de Janeiro)
Siba – rabequeiro do América Contemporânea (Pernambuco)


Veja mais informações e toda a programação.

domingo, outubro 12, 2008

Números da cultura



Conteúdo extraído do site Democratização Cultural

Apenas 8,7% dos 5.564 municípios brasileiros possuem salas de cinema; as capitais com maior percentual de público que lê, pelo menos, um título de jornal por semana são Porto Alegre (68%) e Rio de Janeiro (57%); com relação a orquestras, São Paulo (132 formações) e Pernambuco (77 formações) são os Estados que mantêm maior número de grupos atuantes. Esses e outros dados estatísticos do setor cultural brasileiro, que fazem parte do primeiro volume do Anuário de Estatísticas Culturais a ser lançado oficialmente pelo Ministério da Cultura (MinC), em formato digital, no início de novembro, e em formato de livro em 2009, foram apresentados no 3º Seminário de Políticas Culturais, realizado nos últimos dias 24, 25 e 26 de setembro, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

A resolução de publicar o Anuário surgiu com a constatação da inexistência de um documento que centralizasse as informações estatísticas da cultura no Brasil. Apesar das pesquisas existentes, faltava organizar as informações, de modo a permitir um cruzamento de dados, além de uma posterior interpretação do cenário cultural brasileiro com o intuito de gerar subsídios para a formulação de políticas públicas mais ajustadas e auxiliar na democratização dos investimentos na área. “Embora identifiquemos muitas pesquisas no setor cultural, o fato de terem sido divulgadas de forma isolada não propiciava a formação de um centro de referência para o gestor cultural, para o empresário, para formadores de opinião ou para o público em geral”, explica Pablo Martins, gerente de Planejamento, Estudo e Pesquisa da Secretaria de Políticas Culturais do MinC e responsável pelo projeto.

Há cerca de cinco anos, o Ministério da Cultura iniciou um trabalho de coleta de dados, de incentivo e fomento a inúmeras pesquisas pelo País, além de firmar convênios com órgãos como o IBGE –Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Ipea –Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o Ibope–Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), com o intuito de reunir as informações que serão publicadas agora.

Pablo Martins explica que a compilação desses dados permitirá um diálogo constante com os públicos que se interessam pelo setor e ajudará a tornar os números mais “palpáveis”. Para ele, o Anuário terá também a função pedagógica de criar e estimular o hábito da pesquisa dos números da cultura, o que poderá acarretar no surgimento de projetos mais maduros e desenhados conforme as reais demandas da sociedade. Como exemplo, Martins citou o fato de 10% dos municípios brasileiros não terem bibliotecas. “De posse de informações como essa, os investidores poderão direcionar melhor seus recursos e definir metas para alcançar o que desejam em termos de cidadania cultural”, salienta.

Com estatísticas culturais de mais de 20 segmentos do setor – teatro, biblioteca, museu, artes plásticas, moda, design, cultura digital, cinema, festa popular, rádio comunitária, provedor de internet, entre outros – Martins acredita que o compêndio poderá auxiliar o desenvolvimento do País de forma objetiva. Para isso, o MinC deve atualizar o volume anualmente, com dados de outros indicadores e de outros índices desenvolvidos no Brasil, como o IDCULT– Indicador de Desenvolvimento Cultural, lançado pelo IPEA, que é uma espécie de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano da cultura. Além dessas informações, o Anuário trará curiosidades sobre cada segmento e peculiaridades da formação cultural brasileira. A primeira edição abarca dados dos anos de 2005 a 2007 e, de anos anteriores, quando necessário traçar a evolução histórica da cultura no País.

O Anuário está dividido em cinco grandes áreas, que são oferta da cultura, demanda por cultura, indicadores culturais, gestão cultural e projetos apresentados, aprovados e com captação via Lei Rouanet. As duas primeiras áreas estão baseadas no conceito econômico de oferta versus demanda, mas trarão também dados sobre a qualidade dos equipamentos disponíveis para o acesso, a freqüência dos cidadãos às atividades artísticas e os números sobre o consumo e o consumidor cultural.

Já a área de indicadores mostrará a cultura no universo de produção industrial brasileiro, sua participação no comércio e nos serviços, as despesas públicas dos municípios e o consumo familiar brasileiro. Com relação à gestão, serão apresentados itens como o turismo cultural e a existência de Secretarias ou Conselhos Municipais exclusivos de cultura. Por fim, na área referente aos projetos aprovados, o anuário pretende prestar contas do que vem sendo feito com recursos públicos e permitir maior transparência nos dados federais de projetos incentivados pela Lei Rouanet ou pelo Fundo Nacional de Cultura, discriminando os investimentos por região e por pessoa física ou jurídica. Será possível, também, relacionar o volume de empregos gerados por Real investido nos projetos.

Formação cultural brasileira

Entre os dados que serão apontados pelo primeiro volume do Anuário de Estatísticas Culturais, chama a atenção o baixo índice de leitura verificado entre os brasileiros – a média de leitura no País é de 1,8 livros a cada ano – que teria relação com o também baixo percentual de associações literárias existentes no País. O Rio de Janeiro é o Estado que tem mais municípios que declararam possuir esse tipo de associação, 44% deles. Nos demais, o número é discreto e concentrado, novamente, nas capitais.

Verificou-se, também, que o brasileiro vai pouco ao cinema, apenas 7% freqüenta o equipamento cultural ao menos uma vez por mês. Mas, por outro lado, há um consumo cada vez maior de informações via internet, assim como um aumento na locação de filmes em videolocadoras.

A explicação parece estar na proposição que diz que, em cultura, é a oferta que induz à demanda. Assim, já que existem poucas salas de cinema no Brasil – apenas 8,7%das cidades possuem pelo menos uma sala de cinema –, o público acaba consumindo menos esse tipo de produto. A pesquisa apurou que a quantidade de salas de cinema e livrarias vem caindo paulatinamente. E, embora essa realidade seja pouco observável nas capitais, onde há maior concentração desses instrumentos, o baixo número é comum mesmo em Estados como Rio de Janeiro – 41% dos municípios têm cinemas – e São Paulo – somente 22% das cidades têm o equipamento cinematográfico. Mesmo com poucas salas e sendo apenas o 8º Estado no ranking brasileiro de salas de cinema, Santa Catarina apresenta a melhor distribuição entre as cidades, com apenas 25% das salas concentradas na capital Florianópolis e o restante espalhado pelo Estado.

Pablo Martins interpreta o alto índice de locações como conseqüência de existirem locadoras em 82% das cidades brasileiras. O Espírito Santo, por exemplo, contabiliza locadoras em 98,7% de seus municípios. Em termos absolutos, Minas Gerais e São Paulo ainda ficam à frente, com 643 e 592 locadoras, respectivamente. “Temos visto um outro tipo de consumo audiovisual, já que o cinema não atinge, em uma primeira instância, a maior parte dos municípios. Mas essa tendência reflete também a mudança dos hábitos dos brasileiros. Hoje, as pessoas querem decidir os horários e o tipo de programação que vão consumir. Os aumentos vertiginosos das horas gastas com internet e dos provedores e usuários nos municípios demonstram isso mais claramente. O cidadão quer cada vez mais buscar conteúdos específicos”, explica.

Outro dado verificado que merece atenção é a baixa institucionalização da Cultura pelos municípios, sendo que apenas 4% deles possuem secretarias exclusivas para a área cultural. Essa informação se alinha ao fato de de existirem poucos investimentos e políticas públicas para a cultura nos municípios brasileiros e acena para um cenário desafiador, que pode ser revertido com a ajuda da constatação a partir de instrumentos como o Anuário.

domingo, outubro 05, 2008

Livro "A Economia da Cultura"



Conteúdo extraído do site www.atelie.com.br para uso exclusivamente didático


Arte e cultura, assim como outras produções humanas, por mais "nobres" que pareçam, "podem ser pensadas economicamente". Essa foi a premissa que presidiu as primeiras pesquisas na área, quatro décadas atrás. De lá para cá, os estudos se multiplicaram ano após ano até formar um sólido nicho de conhecimento. É essa experiência acumulada, focada nos países desenvolvidos, que a economista francesa Françoise Benhamou sintetiza em A Economia da Cultura, uma introdução de alto nível ao tema, que agora chega ao Brasil, encontrando-se já na quinta edição na França.

O prefácio, assinado por José Carlos Durand (Grupo Focus, Unicamp) salienta a relutância das ciências sociais (economia incluída) em reconhecer as lógicas de interesse subjacentes ao mundo da estética. Lembra que tais resquícios devem ser encarados "como um entulho intelectual a ser enfrentado em nome da democracia". Isso porque "cultura gera emprego" e, "além do valor em si", a arte hoje é vista como "frente de apoio à inclusão social". Desse modo, mobiliza com força crescente setores governamentais e privados, ONGs, associações e organismos internacionais. Daí o interesse amplo dessa obra para artistas, críticos, jornalistas, profissionais da cultura e da arte, economistas e especialmente os gestores vinculados a entidades e órgãos públicos de cultura.

A autora aborda, em cinco capítulos, as diversas áreas culturais e respectivas cadeias produtivas, como livro e literatura, artes visuais, cinema e vídeo, música e artes cênicas. A questão da intervenção do Estado, sempre controversa, que "contribui para moldar a oferta e condicionar a demanda", perpassa todo o livro.

Françoise Benhamou é professora da Universidade de Rouen, da Escola Nacional do Patrimônio e pesquisadora da Matisse (Universidade Paris 1). Foi conselheira do Ministério da Cultura de 1989 a 90 e secretária-geral da Biblioteca Nacional de Artes entre 1990 e 91.


Leia o prefácio do livro escrito pelo professor e pesquisador José Carlos Durand, Grupo Focus/Unicamp

Com esta tradução, a economista francesa Françoise Benhamou encaminha o leitor de língua portuguesa a um nicho de conhecimento de formação recente: a economia da cultura. Até hoje, uma especialidade quase toda circunscrita ao meio acadêmico das poucas nações ricas e desenvolvidas do planeta.

A autora respeita a sequência cronológica de achados, intuições e teorizações que, nos últimos quarenta anos, vêm mostrando que as artes, como qualquer outra atividade humana regular e coletiva, podem ser pensadas economicamente.

Desde logo, pensar economicamente as artes e a cultura não significa nivelar (ou tomar como equivalentes) as manifestações da criação humana e os bens produzidos em série pela indústria. Muito ao contrário, significa apenas aceitar que, diversamente do que ocorre com sabonetes ou automóveis, existe uma relutância institucionalizada em reconhecer que as práticas culturais e os bens e serviços que dela resultam sejam presididos por lógicas de interesse, inclusive e sobretudo o interesse econômico.

Tal relutância - mostra a sociologia - nada mais é do que expressão inconsciente de uma antiga e aristocrática reivindicação de prestígio baseada na crença de que o mundo das artes seria, em sua essência mais íntima, o reino do completo desinteresse. Sendo aristocrática, esta é uma postura socialmente excludente, em desacordo com o consenso político contemporâneo que toma a cultura como território por excelência de vivência da igualdade e da fraternidade. Daí que o princípio de "negação do econômico" nas artes deva ser visto antes como um entulho intelectual a ser enfrentado em nome da democracia do que como uma barreira contra a infiltração indevida do lucro no mundo sublime da estética - como fácil e costumeiramente é invocado.

Cultura é um setor de gera empregos. É muito diferenciado internamente e com relações muito peculiares entre os indivíduos, grupos e microempresas, que respondem mais pela criação, e as grandes corporações, que dominam a distribuição. E também muito desigual, quando se pensa no abismo que separa o ganho dos grandes astros e estrelas das dificuldades da grande maioria dos que insistem em sobreviver de um fazer estético. Ou ainda da parca e incerta rentabilidade do editor apenas comprometido com autores novos e com qualidade comparada aos ganhos amplos e seguros dos que se limitam a best-sellers.

Benhamou movimenta-se à vontade em um plano comparativo internacional, no qual, como se sabe, o modelo descentralizado anglo-saxão e o modelo centralizado francês de política cultural constituem ainda os paradigmas básicos. Na medida em que o exercício comparativo é feito área por área - livros e literatura, artes visuais, cinema e vídeo, música, artes cênicas, etc., - o leitor tem diante de si um rico panorama de exemplos. Ele fica sabendo através de quais princípios valorativos, meios legais, praxes administrativas, inovações técnicas e resultados financeiros de governos nacionais e locais, corporações econômicas e um sem-número de entidades e grupos definem hoje boa parte das feições do populoso e efervescente mundo das artes e da cultura. Por tudo isso, além de poderem, as artes devem ser pensadas economicamente, para serem fomentadas e promovidas com mais equidade e eficiência.

Não é por acaso que este livro sai por uma editora voltada mais para humanidades e literatura do que propriamente para economia e administração. É apenas um exemplo, entre muitos, de que romper barreiras e reduzir distâncias entre os mundos da arte e da ciência é hoje mais um desafio e uma prioridade à gente das artes do que à das ciências e dos negócios.

O Brasil é um repositório riquíssimo de fenômenos e processos culturais. Afinal, o país conta com uma indústria cultural sólida e um mosaico muito variado de expressões populares em suas diversas regiões. Por razões históricas, ligadas à pequena capacidade de inclusão do sistema educacional, o acesso e o desfrute da cultura erudita (que, aliás, no mundo todo só atinge parcela minoritária da sociedade) é ainda mais seletivo social e economicamente no Brasil.

Mas as coisas vêm mudando muito, nesses mesmos quarenta anos durante os quais a economia da cultura conquistou status e direito a uma rubrica própria nos eventos, nos currículos e nas publicações de ciência econômica dos países ricos. A multiplicação de secretarias municipais e estaduais de cultura, a emergência do patrocínio corporativo às artes e os incentivos fiscais para impulsioná-lo, o surgimento de fundações e entidades não-governamentais direta ou indiretamente na esfera artística, a expansão das grandes corporações de mídia, o acesso à internet e, via satélite, a espetáculos globalizados, a recente onda de instalação de editoras estrangeiras no país, são apenas alguns exemplos das transformações em curso.

Todavia, para que essa nova disciplina se desenvolva no Brasil, forçoso será um trabalho conjunto de construção de um sistema de informações quantitativas sobre fluxos culturais que seja confiável e de acesso público. Não se pode mais aceitar considerações resignadas como: "Hollywood conhece mais nosso mercado de cinema do que os próprios brasileiros". Não basta mais que cada empresa grande de mídia saiba dimensionar "seus mercados" e mantenha essas informações sob sigilo comercial. Não é aceitável que se cobre somente um real de ingresso em um museu carente de conservação, só porque sempre assim se fez. Não é possível aceitar mais que a gestão cultural governamental opere sem um mínimo de referências numéricas indispensáveis para justificar prioridades quando se trata de dinheiro público envolvido e sujeito a prestação de contas (accountability). Não é aceitável enfim que as apreciações sobre tendências da vida cultural brasileira possam flutuar tão arbitrária e inpunemente entre o crônico pessimismo dos apocalípticos e o incorrigível otimismo dos integrados (para usar a dicotomia célebre de Umberto Eco) sem que alguém com mais objetividade disponha de dados para divergir e contestar.