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quinta-feira, maio 07, 2015

Um bom autor e uma boa assessoria de comunicação facilitam a divulgação de um produto cultural: o caso de "Deuses de Dois Mundos - O Livro dos Mortos" de PJ Pereira




Por Alê Barreto
alebarreto@gmail.com


Recebi no fim de abril um e-mail da Letícia Liñeira da 
Baobá Comunicação, Cultura e Conteúdo, de São Paulo. Nele ela me passou informações sobre o lançamento do livro "Deuses de Dois Mundos - O Livro dos Mortos", do escritor PJ Pereira.

Achei muito bacana o e-mail e o release e reproduzo aqui na íntegra, como exemplo para quem está buscando melhorar sua forma de assessorar autores.

Numa chuva de informações que recebo, esta divulgação me chamou a atenção. Acredito que nele encontra-se uma combinação muito importante: um ótimo produto cultural e uma ótima assessoria de comunicação.

Parabéns a Baobá e ao escritor!



[início do e-mail]


From: Leticia

Date: 2015-04-29 14:20 GMT-03:00

Subject: LITERATURA - PJ Pereira lança último volume de trilogia inspirada em mitos africanos, "Deuses de Dois Mundos - O Livros da Morte"

To: alebarreto@produtorindependente.com


Olá, Ale.

Tudo bem?

O escritor PJ Pereira lança “Deuses de Dois Mundos – O Livro dos Mortos” nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador em volume que encerra a saga inspirada na mitologia iorubá e que conta com outros dois títulos: “Deuses de Dois Mundos- o Livro do Silêncio” e “Deuses de Dois Mundos – O Livro da Traição”. Os dois primeiros volumes da saga já venderam cerca de 50 mil exemplares no Brasil. “Deuses de Dois Mundos – O Livro do Silêncio” já foi lançado em Portugal pela Editora Caracter e também será publicado na Polônia, pela Mullato Books, e na Nigéria, pela Book Craft Africa em 2016. Os direitos autorais da trilogia já foram vendidos para o cinema, história em quadrinhos e televisão.

Os livros entrelaçam duas tramas, o dia a dia do ambicioso jornalista Newton Fernandes e o sequestro dos deuses responsáveis pelo destino dos humanos. Uma parte da história se passa no tempo mágico dos orixás e a outra, no dos humanos.









A obra tem um book trailer (www.youtube.com/watch?v=GNAWuAlQKqE) com participação de Gilberto Gil (narração) e trilha sonora com produção de Otto, Andreas Kisser (Sepultura) e Pupillo (Nação Zumbi).

Saiba mais no release abaixo.

À disposição para quaisquer solicitações,

Letícia Liñeira | leticia@baobacomunicacao.com.br
Baobá Comunicação, Cultura e Conteúdo
Rua Porangaba, nº 149, Bosque da Saúde
04136-020 - São Paulo - SP+55 11 3482-2510 | +55 11 3482-6908
[fim do e-mail]



Release

ESCRITOR PJ PEREIRA LANÇA O ÚLTIMO VOLUME DE SUA TRILOGIA INSPIRADA EM MITOS AFRICANOS, “DEUSES DE DOIS MUNDOS – O LIVRO DA MORTE”

A obra chega às livrarias em 11 de maio pela Editora Livros de Safra após o sucesso de vendas dos volumes anteriores, que, juntos, chegam a marca dos 50 mil exemplares








“O livro que você tem em mãos nasceu do preconceito. O próprio autor é quem diz. Diante do preconceito que tinha das religiões africanas (...). Que coisa mais linda, parir um livro como resposta ao preconceito. Eis a saída para o fundamentalismo galopante dos nossos dias e a porta de entrada para a nova civilização que tanto queremos”. 
Marcelo Tas, no prefácio de “Deuses dos Dois Mundos – O Livro da Morte”.

“Nestes últimos 30 anos, tenho participado de rituais de fé, transes coletivos e festas religiosas por todos os continentes. (...)Não me impressiono com pouco. Mesmo assim, quando mergulhei no primeiríssimo volume de Deuses de Dois Mundos - O Livro do Silêncio, fui abduzido por sua força, por esse encantamento que chamo de ‘prazer do texto’”.
Arthur Veríssimo, no posfácio de “Deuses dos Dois Mundos – O Livro da Morte”


São dos fios dos tecidos que se desprendem no instante da morte e fazem com que o tempo se dilate que PJ Pereira cria a narrativa dos momentos finais de seu personagem, o jornalista Newton Fernandes, no último título da trilogia “Deuses de Dois Mundos”. Com lançamentos marcados para 11, 13, 14 e 18 de maio (veja, abaixo, as datas e respectivos locais) pela Editora Livros de Safra, o volume “Deuses dos Dois Mundos – O Livro da Morte” mostra a perpétua batalha entre os orixás da mitologia africana entrelaçados com personagens mortais em plena “dessacralização” do século 21. A trama, que faz justiça à inventiva capacidade humana em recriar a partir da tradição contada, ouvida ou escrita, costura novas perspectivas para o entendimento da psique humana.

Com prefácio do comunicador Marcelo Tas e posfácio do jornalista Arthur Veríssimo, o escritor recorre, a exemplo dos dois volumes anteriores, a uma linguagem imagética – cinematográfica – que confere velocidade ao seu estilo, sem perder, porém, a atenção em mostrar as belezas e o encantamento dos mitos das religiões de origem africana. Assim, este lançamento é um exemplo, na atual literatura brasileira, da tentativa de se buscar a dimensão das singularidades e proximidades entre estes “dois mundos”.

No entanto, não se trata de fazer apologias. “A trilogia não defende uma religião ou outra. Pelo contrário, tem leitores de todo tipo de crença ou descrença”, afirma PJ Pereira. Sua principal preocupação é, assim como o Alagbé – o supremo maestro dos atabaques na criação desta trilogia – atrair, como um imã, pessoas de todos os credos e culturas. Nesse contexto, a narrativa de Deuses dos Dois Mundos – O Livro da Morte transforma-se em outra defesa: a da palavra e a do resgate das histórias não contadas, conjugação possível tal como na imemorial capacidade que possui um contador de histórias.

Na esteira de best-sellers ou filmes internacionais sobre sagas, como Star Wars, O Senhor dos Anéis, Matrix, Alien e De Volta para o Futuro, Deuses de Dois Mundos – O Livro da Morte, reacende a possibilidade do exercício da escuta – do texto escrito –, como nas velhas narrativas sobre ancestrais. Nesse contexto, o que está em jogo é a capacidade que o mito, como narrativa fantasiosa do primordial, da origem e da constituição dos deuses e do mundo, possui em fazer-se espelho das próprias almas e paixões humanas: o arquétipo como personagem universal e atemporal.

Para narrar os últimos momentos do protagonista (o ambicioso jornalista Newton Fernandes, ou New) e de personagens que ocuparam os títulos anteriores, como Pilar e Carlos, PJ Pereira divide os capítulos nos acontecimentos no Aiê – o mundo físico – e no Orum – o mundo encantado dos orixás. Dedicados ao Aiê, os capítulos pares acontecem a “contrapelo”, de trás para frente, mostrando desde a morte até o destino do protagonista e da história. Os capítulos ímpares, por seu turno, desvelam os mistérios de um outro universo, no qual a aparente linearidade dos fatos que ocorre no panteão dos deuses serve como chave de compreensão para algo mais complexo: as lendas, os costumes, os rituais, as cerimônias e os segredos deste plano encantado.

Se os conflitos na terra dos homens giram em torno das relações de poder e o seu fascínio, da troca de favores, interesses nos bastidores da mídia, no sexo, na comida, nas drogas e na feitiçaria, para a procura do sucesso e da grana, no mundo dos deuses, orixás como Oxalá, Nanã, Euá, Exu, Oxóssi, Ogum, Xangô, Iansã e Iemanjá debruçam-se sobre o mistério da mudança no curso do rio que sai do lago de Ifá – se, antes, ele caía montanha abaixo, agora passa a subir montanha acima. Numa rica alegoria exposta no livro, é neste lago que Ifá lê o destino dos homens. Porém, uma vez mudada a sua direção, os búzios conseguem apenas vislumbrar o passado, não o futuro. Nas belas palavras de Iemanjá, um exemplo deste espelho daquilo que designa a vida e a natureza na Terra: os deuses também sofrem com o que é mutável. “Aí vieram eles ontem e fizeram um feitiço que faz a água correr no sentido contrário do tempo, e agora, para ler a história, temos que ler de trás para frente, lendo o que aconteceu em vez do que vai acontecer. Quem precisa de uma adivinha que lê o passado?”.

Neste “correr de águas ao contrário” encontram-se as possibilidades de ligação com o desenvolvimento da história de Newton Fernandes no Aiê e, consequentemente – uma vez que o Orum fica no centro do Tempo, segundo a alegoria do rio Igba –, dos deuses irem ao passado e ao futuro nos mundos dos mortais, para narrar como mulheres e homens comuns foram sugados pela Terra e se tornaram – devido a grandes façanhas heroicas em seu povoado – orixás, ou para mostrar como nascem os cultos para cada divindade arquetípica.

Destaque para a história da jovem africana Folami, que, desobedecendo as “tradições” humanas misóginas da comunidade de sua época, decidiu estudar em busca de um futuro melhor. Injuriados, os homens do local a sequestraram após impor todas as torturas físicas e psicológicas a seus familiares. A jovem, depois de duras penas, regressa à sua terra, estuda e muda – como uma guerreira – o curso do “rio do destino” de sua vida. Sua trama identifica-se, de ponta a ponta, com as origens das Iá Mi Oxorongá.

Se, nos dois primeiros títulos da trilogia, O Livro do Silêncio e O Livro da Traição, PJ Pereira mostra as potências do masculino, no presente volume as forças das Mães Ancestrais rebelam-se contra as formas opressoras do masculino num mundo sagrado, tal como no mundo dos mortais, regido por leis que desrespeitam o verdadeiro significado da tradição. Uma vez que cabe aos orixás masculinos, e não aos femininos, a condução dos destinos dos homens, arma-se a guerra entre as deusas contra os deuses, pois algo, na origem, perdeu seu curso “natural”. Assim, O Livro da Morte também é, no mínimo e neste sentido, um instigante convite a questionar o desequilíbrio entre as potências do feminino e do masculino.

Como bem afirma Marcelo Tas no prefácio do livro, o interesse de PJ Pereira – antes de virar um contador de histórias na literatura – surge de seu desconhecimento e preconceito em relação à religião de matriz africana: “Para fazer essa travessia, PJ enfrentou o fantasma do medo com a palavra coragem que, ao contrário da contração fundamentalista, significa abrir o coração”. Do processo de estudos de 15 anos, com uma bibliografia fundamentada – à disposição do curioso leitor no final do livro –, e elogios de pesquisadores da cultura africana, como Reginaldo Prandi, professor da Universidade de são Paulo e autor do consagrado “Mitologia dos Orixás”, PJ Pereira desafia os limites de uma aparente divisão entre dois mundos, sejam eles o do Aiê e do Orum, ou do conhecido e do desconhecido, para escrever uma obra como resposta ao preconceito. A visibilidade da trilogia e seu sucesso de público e crítica renderam um projeto em conjunto com a The Alchemists, o qual já está sendo trabalhado com PJ Pereira.

Como publicitário fundador da premiada agência de publicidade Pereira & O’Dell, de San Francisco, PJ Pereira recebeu o Emmy, em 2013, na categoria Innovation in Storytelling. Vale ressaltar que sua trilogia tem duas histórias trançadas e mesclam narrativas contadas de maneiras tradicionais com formatos inspirados em tecnologias modernas: e-mails nos dois primeiros livros e, neste lançamento, posts andando contra o tempo, como nos blogs e mídias sociais de hoje.

A escrita de PJ Pereira revela-se como admiração pelo prazer do texto, suscitado pela abertura do ouvido, pois dá espaço à inteligência do leitor em receber as palavras, expressões e gestos do cotidiano, colocando-as no mundo das alegorias e dos arquétipos iorubás que tanto contribuíram para a construção da rica diversidade da cultura brasileira. Mitos de uma determinada cultura, a africana, localizados num espaço-tempo, mas que, caso se queira, podem ser concebidos como “mitologias de nós mesmos e do tempo que corre”.


PEQUENO GLOSSÁRIO PARA A IMPRENSA (expressões do texto)

AIÊ – Mundo físico e material, no qual a percepção do tempo-espaço se dá na dimensão cronológica de passado, presente e futuro.

IÁ MI OXORONGÁ – São as Mães Ancestrais. Representam o poder feminino na religião africana de origem iorubá.

IFÁ – É o nome de um oráculo africano, búzios, que possui dons divinatórios sobre o futuro.

IORUBÁ – O povo yoruba, iorubás, iorubas, iorubanos ou nagôs (em iorubá, Yorùbá) constitui um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental, com mais de 30 milhões de pessoas em toda a região. Trata-se do segundo maior grupo étnico na Nigéria, correspondendo a, aproximadamente, 21% da sua população total.

ORUM – Mundo encantado dos orixás, dos eguns (espíritos dos mortos) e das entidades da mitologia iorubá. Sua percepção espaço-temporal é totalmente diferenciada.


MAIS SOBRE A TRILOGIA

Os dois primeiros títulos de Deuses de Dois Mundos, O Livro do Silêncio e O Livro da Traição, já venderam, juntos, cerca de 50 mil exemplares. A fanpage da saga no Facebook tem mais de 130 mil curtidas. Para o lançamento do primeiro livro, PJ lançou um trailer (http://bit.ly/Ia8NKt), uma animação estilo 300 e Sin City feita pela produtora Laundry Design, de Los Angeles, com direção de Anthony Liu. O filme, que teve mais de 340 mil visualizações, é narrado por Gilberto Gil e a trilha tem produção de Otto, Andreas Kisser (Sepultura) e Pupillo (Nação Zumbi). A trilogia teve os direitos de adaptação para cinema, quadrinhos e TV vendidos para a The Alchemists, produtora multiplataforma dos seriados Smallville, Heroes e East Los High.


SOBRE O AUTOR

Nascido e criado no Rio de Janeiro, o publicitário PJ Pereira sempre foi fascinado por tecnologia e mitologia. Dessa estranha combinação surgiu a inspiração para a série Deuses de Dois Mundos. É fundador da agência de publicidade Pereira &O’Dell, baseada em San Francisco (Califórnia, EUA) e com escritórios em Nova York, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2013, PJ Pereira conquistou um Emmy na categoria Innovation in Storytelling. No concorrido Festival de Cannes (França), acumula quatro Grand Prix.
SOBRE A EDITORA

A Livros de Safra foi fundada, em 2010, pelos empreendedores da bem-sucedida “Negócio Editora”, Marcelo Cândido de Melo, escritor de livros de ficção e não ficção, e Adriana Conti Melo, artista plástica. A editora tem quatro selos, os quais focam diferentes segmentos de publicação. O Alfaiatar é o que se chama de vanitypublishing (presta serviços editoriais e comerciais para autores que valorizem a visão, a estética e o modo profissional de atuar). O selo Impressão Régia direciona-se às obras de Direito, enquanto o Da Boa Prosalança livros de ficção e não ficção com apelo mais comercial, mantendo-se sempre atento ao controle rígido da seriedade dos temas e das abordagens desenvolvidas pelos autores. Por sua vez, o selo Virgiliacontempla conteúdos mais literários, ficção ou não, com linguagem mais sofisticada.


FICHA TÉCNICA:

DEUSES DE DOIS MUNDOS – O LIVRO DA MORTE

Autor: PJ Pereira

Editora: Livros de Safra - Selo “Da Boa Prosa”

ISBN: 978-85-64684-59-1

Páginas: 384

Preço: R$ 44,90


As publicações da Editora Livros de Safra podem ser adquiridas nas melhores livrarias do Brasil ou pelo site www.livrosdesafra.com.br



SERVIÇO:

SP
Lançamento de “Deuses dos Dois Mundos – O Livro da Morte”
Dia 11 de maio de 2015 (segunda-feira), das 18h às 22h
Livraria Cultura Conjunto Nacional
Avenida Paulista, 2.073, São Paulo

Entre 18h e 19h, o autor, PJ Pereira, fará uma apresentação “surpresa”, contando detalhes do livro.


RJ
Dia 13 de maio (quarta-feira), das 18h às 22h
Livraria Nobel, Caxias Shopping
Rod. Washington Luiz, 2.895, Duque de Caxias – RJ

RJ
Dia 14 de maio (quinta-feira), das 18h às 22h
Livraria Travessa do Shopping Leblon
Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 - 2o Piso, Rio de Janeiro


BA
Dia 18 de maio (segunda-feira), às 18h
Livraria Saraiva do Shopping da Bahia (antigo Shopping Iguatemi)
Av. Tancredo Neves, 148, Caminho das Árvores, Salvador




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Alê Barreto (ou Alexandre Barreto) é administrador de empresas, gestor cultural, gestor de pessoas, gerente de projetos, empresário artístico, produtor executivo, consultor, criador de conteúdo, blogueiro, professor e palestrante. Concluiu sua formação em gestão pública em cultura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e o MBA em Gestão Cultural na Universidade Cândido Mendes (RJ). Gosta de desafios. Isso faz com que esteja aberto a convites, à novas oportunidades e a trabalhar em diferentes lugares. 
Saiba mais

Atualmente reside no Rio de Janeiro, é um dos gestores do Grupo Nós do Morro na comunidade do Vidigal e responsável pela implantação da área de Produção Cultural na Escola de Música da Rocinha.

+55 21 97627 0690 alebarreto@gmail.com

quarta-feira, agosto 05, 2009

Conheça um pouco da cultura do Distrito Federal: visite o Açougue Cultural T-Bone




Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)


No Distrito Federal, em Brasília, uma experiência muito interessante vem mostrando que trabalho organizado e visão de longo prazo mudam o estado das coisas.

Leia com atenção a reportagem de Isabel Clemente, publicada na Revista Época.


O açougueiro dedicado aos livros



O menino Paulo Ricardo Carvalho das Chagas tem 10 anos e há dois frequenta uma biblioteca. Ele tem a sorte de contar com uma em frente ao trabalho da mãe, onde passa as manhãs antes de ir à escola. A mãe vende salgadinhos e refrigerantes numa barraca na rua, na frente de uma parada de ônibus de concreto e pintura descascada, em uma das avenidas comerciais mais apinhadas de Brasília, a W3 Norte. É na parada de ônibus que Paulo Ricardo e outros passageiros se encantam com livros que acabam levando para casa. “Já li um monte. Gosto muito de contos de fada, meu preferido é Pinóquio”, diz o bem articulado menino, que também se prepara para a longínqua prova de habilitação de motorista lendo manuais de autoescola. “Sei o significado de várias placas.”

De manuais de autoescola a clássicos da literatura mundial, tem de tudo nas 35 bibliotecas montadas nas paradas de ônibus ao longo da avenida que corta de uma ponta a outra os 7 quilômetros da Asa Norte, um dos bairros de Brasília. Os livros estão à disposição do público, de graça e sem fiscalização. As pessoas levam o que bem entendem, sem anotar nomes ou o título da publicação, pelo prazo que lhes convier. As regras estão escritas num pequeno cartaz: “Leve um por vez; devolva-o em bom estado; não fique com o livro por muito tempo”.

Esses livros fazem parte de um acervo de mais de 100 mil títulos da “biblioteca popular”, projeto idealizado e mantido por Luiz Amorim, um açougueiro de Brasília. Paulo Ricardo é um dos colaboradores espontâneos e informais do açougueiro. Divulga sua fonte de consultas para os amiguinhos, arruma e até limpa as estantes e vigia, da barraca da mãe, o que os outros fazem com sua biblioteca preferida.

Visto com descrédito no início, o projeto da biblioteca popular sobrevive há dois anos sem patrocínio. “Nunca tive recursos para comprar um único livro novo. É tudo doado”, diz Luiz, de 43 anos, que aprendeu a ler aos 16. Luiz ganhou fama com as Quintas Culturais, eventos realizados na calçada de seu açougue a cada duas semanas, com escritores e artistas. Já passaram por seu estabelecimento os escritores Ruy Castro, Fernando Morais, Ziraldo e as cantoras Elba Ramalho e Tetê Espíndola. Para esses eventos, com atratividade e publicidade garantidas, Luiz conseguiu o patrocínio da Petrobras, há quase três anos. Afinal, os cachês podem variar de R$ 10 mil a R$ 100 mil, valores fora do padrão de vida desse baiano que migrou para Brasília aos 7 anos. Luiz mora de aluguel com a mulher e o filho de 3 anos numa quitinete de 50 metros quadrados, em cima do açougue. Nas duas horas de conversa com ÉPOCA, o açougue recebeu um único cliente. “Meu desafio no início era atrair as pessoas para eventos culturais num açougue. Agora é mostrar que o açougue é meu ganha-pão, porque as vendas caíram. Isso aqui não é hobby”, diz Luiz, sério.

Inaugurado em 1998, o açougue permanece com a mesma aparência, sem filiais. Antes do patrocínio, Luiz tirava do bolso recursos para fazer os eventos culturais. Foi nesse ambiente que criou a primeira biblioteca popular, disseminando o gosto pela literatura entre funcionários e clientes que chegavam para comprar um bife e saíam também com um livro de Machado de Assis embaixo do braço.

Hoje, é comum ver os funcionários registrando as doações que não param de chegar. As novidades são distribuídas quando o açougueiro sai em sua Kombi sem bancos para arrumar e abastecer as estantes nos pontos de ônibus, com a ajuda de dois empregados. Um deles, calçando galochas brancas e boné de açougueiro, conta ler pelo menos um por mês. Edglei Cavalcante trabalha há dez anos com Luiz. Estudou até a 5ª série e, enquanto ajuda o patrão a arrumar as estantes populares, separa livros para si ou para a filha de 7. “Depois devolvo e pego mais”, diz.

Ao ver os rapazes arrumando as estantes, uma senhora pergunta, de longe: “E pode pegar assim, é? Pensei que fosse crime!”. Quando a desconfiança vira confiança, Luiz comemora. É essa consciência cidadã que estimula o respeito ao espaço público e ao bem comum que impressionou a responsável pela área cultural da Unesco no Brasil. “Oferecer algo que não é de ninguém, num local público, e contar com que o usuário devolve o livro em bom estado é de uma didática mais importante até que a leitura em si”, diz Jurema Machado, coordenadora de cultura da Unesco no Brasil. “Esse projeto prova que é possível fazer isso, porque funciona.”

A Unesco não dá apoio financeiro a projetos, mas resolveu ajudar a difundir a ideia da biblioteca popular, para que outras pessoas tenham a mesma iniciativa em suas cidades – esse, sim, é o grande sonho do açougueiro. “Me cobram porque eu não estendo até a Asa Sul, ou a cidades-satélites, mas não tenho condição de fazer isso sozinho”, diz Luiz. Sua mulher, Vera, uma gaúcha alta, loura e de olhos verdes, que trabalha como analista de sistemas, afirma: “É como um filho dele. E para manter um filho você não mede esforços, não questiona quanto sai de seu bolso”.

Para tornar as bibliotecas populares uma realidade, Luiz peregrinou por bibliotecas “de verdade”, colhendo informações. Esse filho, como bem definiu a mulher, ele gestou por três anos, até tomar coragem para o parto. Cercou um ponto de ônibus com estantes, expôs 10 mil livros e ficou lá sentado, prancheta na mão, tomando nota. “Aí eu percebi que só teria credibilidade se todos os pontos de ônibus oferecessem isso e estivessem sempre organizados”, diz. “Há estudos de sociologia que explicam esse comportamento por constrangimento. O cara que não cuida do banheiro na rodoviária não tem o mesmo comportamento no shopping, onde encontra tudo limpo. É por aí”, afirma. “E o homem, como ser coletivo, é bom”, diz, citando Aristóteles sem soar pedante. Em nome de sua paixão por livros, Luiz vem investindo quase tudo o que ganha na ideia fixa de disseminar o hábito da leitura. “Devo tudo aos livros e sei que mudei a vida de muita gente com eles.” Alguém duvida?

Fonte: Revista Época


Alguém tem dúvida de que Luiz Amorim é um produtor cultural independente?

O que você faz para levar adiante as suas idéias e projetos?


Conheça mais o Açougue Cultural T-Bone

domingo, agosto 02, 2009

Um escritor que tem muito a contribuir com a formação de um produtor cultural independente


Vídeo produzido pelo Jornal de Debates, cujo diretor é o meu amigo Pedro Markun


Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)


- Um sonho?
- Parar de trabalhar.

Ao ouvir a resposta à pergunta feita pelo jornalista Roberto D`Avila, você pode estar pensando que o entrevistado era é uma pessoa que não gosta do que faz, talvez um adolescente querendo curtir a vida ou malandro da velha guarda.

Pois o entrevistado é um intelectual que em 1997 escreveu o livro Cidade de Deus: Paulo Lins.

A vida nos mostra a cada momento que sempre há uma oportunidade de ampliarmos a nossa formação como produtores culturais independentes.

A primeira vez que ouvi falar no Paulo Lins, curiosamente, não foi na época do filme Cidade de Deus.



Foi num dia comum de trabalho, lá no Nós do Morro, em 2008. Quando perguntei "quem é Paulo Lins", minha diretora, que é uma educadora, estimulou: procure no google. Pesquisei rapidamente e vi que ele era o autor do livro que deu origem ao filme. Como uma série de outros assuntos, anotei para pesquisar mais adiante.

Hoje, quando finalmente tive a sorte de fazer minha antena pegar o sinal de TV aberta, aqui no Morro do Vidigal, sintonizei na TV Brasil e me deparei com o escritor, falando da sua formação, como escreveu o livro Cidade de Deus e o seu novo livro "Desde que o samba é samba é assim".

Durante a entrevista, ele cita encontros que teve com o Férrez, escritor que descobri recentemente, mencionado nos posts anteriores.

No final, Paulo Lins afirma: "é muito melhor ler do que escrever".

Depois desta verdadeira aula, fiquei curioso em conhecer este escritor, dialogar com ele. Achei dois vídeos no youtube, o que está no início do post e este aqui:

terça-feira, julho 28, 2009

Um escritor que é um produtor cultural independente




Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)


Resolvi assistir a sessão do filme "Palavra (En) Cantada" no Odeon, no último domingo.

O filme é ótimo. Não sou um conhecedor profundo do trabalho da Adriana Calcanhotto, mas o que conheço gosto muito. Neste filme, pude ouvi-la falar. Foi ótimo ver a insatisfação dela com o debate "letra de música não é poesia". José Miguel Wisnik e Luiz Tatit dão uma aula sobre os momentos da história em que a música brasileira passa a flertar mais com a literatura. Arnando Antunes sempre direto e sincero fala sobre sua tranquilidade de conviver com a diversidade cultural. Zeca Baleiro e seu encontro com a Hilda Hist. A Zélia Duncan cantando. O Caetano completamente Caetano na época dos Festivais. Para mim, foi uma aula de produção cultural. No sentido amplo.

Enquanto me recordo do Jorge Mautner cantando Maracatu Atômico, do Lirinha falando "que a poesia está além da estrutura", do Lenine falando da verdade do trovador medieval presente nas fontes da cultura brasileira que inspiram o seu trabalho, compartilho com vocês uma pergunta feita pelo escritor Férrez: porque não se inclue um livro na cesta básica?

Essa frase não para de ecoar na minha cabeça. Fiquei curioso para saber quem era este tal de Férrez.

Este é o primeiro material que encontro dele no youtube, onde fala outras idéias muito interessantes.