Iniciei o dia recebendo um presente. Minha amiga Andreia Schinasi, do Núcleo de Música do Itaú Cultural, me enviou o link do vídeo acima. Trata-se de um making of da comissão do Rumos Música 2010/2012.
Considero as práticas do Itaú Cultural uma referência no setor cultural brasileiro, especialmente o projeto Rumos, que realiza um mapeamento muito importante da produção cultural brasileira.
Assista ao vídeo. É uma oportunidade de benchmarking. Mostra uma forma inteligente, séria, qualificada e plural de se pensar o trabalho de curadoria de música. Pode ser também aplicado a outras áreas.
Divulgue isso também para quem trabalha elaborando projetos de festivais independentes, mostras artísticas, editais e concursos.
* Alê Barreto é administrador, produtor cultural e autor do livro Aprenda a Organizar um Show, primeira publicação disponibilizada de forma livre e gratuita no Brasil sobre a tecnologia de produção de shows. Trabalha novos conceitos e oferece serviços diferenciados para empresas, produtores, grupos culturais e artistas. Divulga reflexões sobre seu processo de trabalho no blog Alê Barreto e valoriza encantadoras mulheres.
21-7627-0690 (Rio de Janeiro) alebarreto@produtorindependente.com
Cena do filme "O Nome da Rosa": Guilherme de Baskerville (Sean Conery) e seu assessor Adso de Melk
Alê Barreto Administrador, produtor cultural independente e palestrante
Quem já leu os fascículos virtuais, versão impressa ou participou do meu curso "Aprenda a Organizar um Show", já deve ter percebido que o meu trabalho caminha na direção de um arranjo constituído por quatro propostas, que são critérios que considero fundamentais.
Troca de conhecimentos
Em seu livro "Pedagogia da Autonomia", o educador Paulo Freire afirma que ensinar exige risco, aceitação do novo, saber escutar e disponibilidade para o diálogo.
Acredito que o trabalho de organizar o universo da ação cultural também necessita de todos estes pré-requisitos, que no meu entendimento convergem para a prática da troca de conhecimentos.
Interpretação
Trabalhar com método é uma necessidade e uma qualidade que diferencia um profissional da cultura. Foi-se o tempo em que simplesmente adotávamos uma determinada prática porque artistas estrangeiros fazem assim, porque na TV é assim, porque nos livros de negócios é assim ou porque numa empresa famosa de produção de eventos é assim. Adotar o uso de um método apenas porque é moda ou porque pensamos ser uma "regra" no mercado, sem uma cuidadosa interpretação, pode nos levar abandonarmos formas de ação que são pontos fortes e oportunidades estratégicas em nosso trabalho.
Todo o método necessita de interpretação.
Contextualização
Um dos maiores avanços no pensamento do conceito de cultura é pensar no conceito de culturas. Da mesma forma, um dos maiores avanços no pensamento do que pode ser produção e gestão cultural é pensar na pluralidade que envolve o exercício desta atividade.
Você acha que produzir um show em Porto Alegre é exatamente igual a produzir um show em Rio Branco? Você acredita que produzir um seminário cultural em João Pessoa é a mesma coisa que produzir em Belo Horizonte? Há muitas semelhanças, mas são contextos completamente diferentes.
A percepção desta pluralidade nos leva ao entendimento de que o método a ser utilizado para uma ação cultural necessita ser planejado após ser interpretado e adequado ao contexto em que será realizada.
Aplicação
As ciências de produção e gestão cultural possuem uma similaridade muito grande com as ciências administrativas: são ciências aplicadas.
A maior parte das pessoas que atua em produção e gestão cultural, assim como administradores culturais, aplica no exercício de sua atividade os diferentes métodos estudados ou apreendidos ao longo de sua trajetória.
Antes de sair aderindo à última novidade, considere na troca de conhecimentos, durante sua interpretação e contextualização, se o método que você deseja adotar possui uma aplicação prática.
Lembre-se: produção, gestão ou administração cultural são ciências que se ocupam de "fazer acontecer" uma ação cultural.
Depois de apresentar conteúdos relacionados a novas formas de organizar a cultura ("O que são coletivos?", "Coletivo Catraia"), as novas formas de expressão da cultura (video game), eventos culturais (Conferência Livre de Cultura em SP), bibliografias e sugestões de micro patrocínio para captação de recursos, durante este mês de dezembro, vamos pensar mais. Pensar sobre como estão sendo construídos e gestionados nossos arranjos de trabalho na área de produção cultural. Para isso, quero falar um pouco sobre expectativas, método, apresentar falas da professora Heloisa Buarque de Holanda sobre leveza, a delicadeza, a capacidade de ouvir e gerar resposta do outro, priorizar para lidar com o excesso de atividades e sugerir algumas reflexões.
Expectativa
Na medida que vou exercendo minha atividade, percebo que muitas pessoas projetam na figura do produtor cultural o papel de salvador da pátria, assim como se faz com líderes, políticos, etc. Se espera tudo do produtor cultural, mas esta "expectativa" muitas vezes é construída de forma equivocada. Ao invés de se incluir um pouquinho de razão e organização como ingredientes para construção de uma expectativa, as pessoas estabelecem arranjos de trabalho baseados apenas nas suas impressões, que mudam com frequência, de acordo com os seus estados emocionais.
Se você perguntar para qualquer grande artista ou intelectual o que ele espera de um produtor cultural, certamente você ouvirá ele dizer que um produtor cultural
"deve ser comprometido"
"deve dar respostas rápidas"
"deve atender o telefone no primeiro toque"
"deve responder imediatamente todo e qualquer e-mail"
"deve ser flexível, se adaptar a tudo"
"deve gerar resultados"
Método
Minha experiência em grandes empresas, nacionais e multinacionais, acompanhando todas as modas que sucessivamente o mundo corporativo produziu sobre o "perfil ideal" de trabalhador, e há quase sete anos, como empreendedor no setor cultural, tem me ensinado que todas estas exigências, juntas, sem um método, sem planejamento detalhado da dosagem equilibrada, sem se pensar a particularidade de cada situação, somente levam a improdutividade, que gera desgaste das relações humanas construídas no trabalho e, por última instância, a perda de um recurso esgotável e não-renovável que o Universo nos brindou desde que nascemos: o nosso tempo de vida.
Falar em se trabalhar com método no novo mercado de trabalho do setor cultural que está se constituindo no Brasil, onde a maior parte dos contratantes não possuem formação em administração e gestão, pode parecer muita pretensão da minha parte. Digo isso comparando a questão com a minha outra profissão, que é de administrador. A maior parte dos empresários brasileiros (multinacionais não são assim) não possuem formação em administração. Gostam de dizer: "eu não sou administrador e administro o meu negócio. Estou neste ramo há 20 anos". Se a competição neste ramo for pouco agressiva, de fato, não há motivo em se querer investir em contratar pessoas com melhor formação. Mas os tempos são outros e querendo ou não o cenário ano a ano vem se tornando mais competitivo, o que vem mudando esta cultura. Muitos empresários já entendem que, gostando ou não, é melhor contratar alguém que estudou como trabalhar com método, do que alguém que é levado pelas suas emoções e aventuras empíricas.
Uma das maiores vantagens de se trabalhar com método é que ele permite que a gente monitore a variação de nossa própria subjetividade e consiga prosseguir até atingir um resultado.
Então, a minha pretensão é maior do que falar sobre a necessidade de se trabalhar com método. A minha pretensão é continuar construindo minha carreira de trabalho sempre pautada na busca de utilizar o método como ferramenta para conseguir cada vez mais realizar melhor uma ação cultural. E minhas viagens pelo Brasil tem me mostrado que não estou sozinho nessa. Muita gente como eu, que atua há poucos anos na produção cultural, vem pensando em diferentes cidades do Brasil: precisamos trabalhar com método.
Estes dias, li a matéria "O guru do Brasil" que fala da trajetória do consultor Vicente Falconi, citado pela revista Exame como o mais influente especialista do país em gestão de empresas e governos. Toda a matéria reforça a idéia que defendo: o método é essencial para o desenvolvimento de qualquer organização. Nos anos 90, quando trabalhei como assessor técnico de programas de qualidade, ISO 9000, etc, era uma novidade na indústria. Aos poucos, esta noção foi ganhando espaço no setor de serviços. De 1999 a 2001 vivenciei no dia a dia isso, trabalhando em uma empresa do ramo de telecomunicações recém instalada no Brasil por canadenses. Toda esta idéia de se trabalhar com método, para mim, é essencial e urgente para as organizações e os profissionais que atuam no setor cultural.
A leveza, a delicadeza, a capacidade de ouvir e gerar resposta do outro e priorizar para lidar com o excesso de atividades
Mas trabalhar somente com método não é tudo. As organizações militares trabalham com método e nem sempre as pessoas se sentem bem ou felizes com isso. Tenho convicção de que é preciso aliar ao método a leveza, a delicadeza, a capacidade de ouvir e gerar resposta do outro e priorizar para lidar com o excesso de atividades.
Para falar um pouco sobre isso, apresento aqui os vídeos feitos pelo site Nós da Comunicação com a escritora Heloisa Buarque de Hollanda.
Leveza e delicadeza
Capacidade de ouvir e gerar resposta do outro
Priorizar para lidar com o excesso de atividades
Algumas reflexões
Quais são as suas expectativas em relação aos arranjos de trabalho que você constitui? Você acredita que o melhor caminho é aceitar cegamente tudo para se manter no mercado? Já pensou que você também constrói o mercado?
Já pensou que muitas pessoas devem estar procurando pessoas organizadas, que trabalhem com método e que talvez o caminho seja dar mais visibilidade ao que você faz, estar mais disponível e acessível, para que estas pessoas encontrem você?
É possível, com estratégia, comunicação, disciplina, paciência e gratidão, mudar arranjos de trabalho rígidos, em relações baseadas na leveza, delicadeza e produtividade.
Exercite sua capacidade de ouvir e gerar resposta do outro.
Entenda como o excesso de atividades atrapalha sua qualidade de vida e a produtividade do seu trabalho.