sábado, julho 04, 2009

Eu preciso sentir prazer ao trabalhar com produção cultural


Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego que acreditava que o sentido da vida era o prazer



Por Alê Barreto (alebarreto@produtorindependente.com)


No fim de junho comecei a pensar nos assuntos que iria abordar em julho. Falar sobre a importância que tem para mim sentir prazer ao fazer produção cultural me pareceu ser um bom começo para este mês.

Há duas formas básicas de se fazer produção cultural. Uma é trabalhar para fazer acontecer uma ou mais ações culturais, sem que necessariamente receba dinheiro por esta atividade. A outra é fazer acontecer uma ou mais ações culturais tendo que obrigatoriamente receber dinheiro, pois trata-se da profissão que é a fonte de sustento de sua vida.

Seja na opção "0800", gíria como chamam o que é gratuito aqui no Rio de Janeiro, ou na opção paga, trabalhar com produção cultural é uma escolha. E para esta escolha, podemos ter as mais diversas motivações.

Não julgo as pessoas pelo motivo que as leva a querer fazer produção cultural ou pelo fato de desejarem receber ou não dinheiro por esta atividade. Eu já fiz a minha escolha: produção cultural é minha profissão, pelo menos nesta etapa da minha vida. Para que seja minha profissão, preciso receber dinheiro. Não tenho vergonha e nem culpa desta minha decisão. Aliás, acho um absurdo a discussão recorrente entre as pessoas do meio artístico sobre a necessidade de se ganhar dinheiro. Alguém tem dúvida de que é preciso dinheiro para sustentar a vida de uma pessoa?

Mas há uma questão que me preocupa e que acredito ser importante pensarmos juntos: trabalhar com produção cultural não é sacrificar-se pela arte ou pelos artistas.

As atividades de produtor, administrador ou gestor cultural são recentes no Brasil? Sim. Não existe lei que regulamente especificamente estas profissões? Sim. O mercado está acostumado a contratar pessoas com pouca especialização para estas atividades? Sim. A maior parte da oferta de trabalho é informal ou para profissionais autônomos? Parece que sim. Há pouca oferta de ensino voltado a qualificação das pessoas que atuam nestas atividades? Sim. Tudo isso é verdade. E existem mais obstáculos. Mas isso não são evidências de que optar trabalhar nesta atividade signifique desejar sacrificar-se.

Você acha fácil a carreira de um policial? E de bombeiro? Você acha moleza ser professor? Você pensa que passar a noite acordado varrendo as ruas é uma tarefa simples? Já se imaginou trabalhando dentro de um presídio como agente penitenciário? Já pensou como é o dia-a-dia de quem trabalha num hospital numa unidade de tratamento de crianças com câncer? Você tem noção do que passa uma pessoa que trabalha como agente funerário? E as pessoas que trabalham em plataformas de petróleo em alto mar?

Citei alguns exemplos para que a gente possa visualizar com mais clareza a questão. Todas as profissões possuem dificuldades. Mas com o tempo, muitas pessoas ficam hipnotizadas com o seu cotidiano e tendem a pensar que a sua atividade é pior do que as outras. Invés de tentarem entender o seu momento de vida, justificam para si mesmas que aceitam resignadamente as dificuldades do exercício da atividade de produtor cultural por ser um "sacrifício necessário para que a arte e a cultura sobrevivam". Ledo engano. A arte e a cultura são inerentes ao ser humano e ambas estão em constante mutação. Queiramos ou não, onde existir um ser humano, lá haverá cultura e lá haverá algum tipo de arte.

Outra situação que considero absurda é dizer que se aceita péssimas condições de trabalho pela necessidade de alguém se sacrificar pelos artistas. Sinceramente, mesmo que muitos artistas passem por dificuldades econômicas, situação pela qual passam pessoas de quase todas as profissões, eles não são coitadinhos, não são miseráveis e, para espanto de muitos, não dependem de produtores. Pelo contrário, a maioria dos criadores culturais são pessoas privilegiadas, que podem exercer uma atividade que a grande maioria das pessoas sequer pode sonhar em fazer. Muitos inclusive tem habilidade de exercer sua atividade criativa, fazer sua própria produção executiva e administrar sua carreira. Prova disso é o crescimento do mercado cultural independente.

Assim, fazer produção cultural, para mim, precisa ser tão prazeroso quanto é prazeroso para um compositor fazer uma música. Fazer produção cultural precisa ser tão prazeroso quanto é prazeroso para um intelectual ler um texto. Fazer produção cultural precisa ser tão prazeroso quanto é prazeroso para um dançarino movimentar o seu corpo.

Sentir prazer no trabalho, para mim, é importante. Nunca aceitei que para trabalhar com produção cultural é preciso aceitar como normal estar estressado e trabalhando com gente estressada. Nunca aceitei que ser produtor cultural, que é uma profissão que eu escolhi, é esquecer o que eu estudei e estudo para concordar cegamente com orientações equivocadas, sem nenhum fundamento técnico, vindas de profissionais autoritários, sem formação, só porque possuem mais tempo de atividade do que eu. Nunca aceitei que trabalhar com produção é ter que tolerar produtores, técnicos e artistas mala sem alça "porque é assim na área da cultura". Nunca aceitei a visão reduzida de que ser produtor cultural é ser babá de artista ou digitador de formulário de leis de incentivo.

Adoeço quando o meu trabalho se converte somente em desprazer. Sabe qual é o termômetro? Perceber que não consigo "desligar" do trabalho: fico encanado tentando resolver, no meu tempo livre, problemas do dia-a-dia.

Para que eu sinta prazer no trabalho que eu faço, procuro, dentro do possível e dos meus limites, parar de tempos em tempos e avaliar o meu momento de vida. Perceber como estou, como estão as minhas relações com quem trabalho, como está o contexto onde estou realizando minha atividade. Mesmo que existam assuntos urgentes que pareçam impedir que eu dê uma parada para pensar, eu corro o risco. Dou uma pausa e penso. A pausa não é necessariamente parar de trabalhar. A pausa é priorizar usar o meu tempo livre para refletir e se o que estou fazendo eu quero para mim.

Por fim, o que quero para mim, por mais que eu goste, precisa de equilíbrio. Ser produtor cultural independente não pode ser uma neurose do tipo "meu trabalho ou minha carreira é tudo". Ser produtor cultural independente é aprender a me desenvolver numa atividade que dialoga com as outras atividades da minha vida. No meu ritmo.

2 comentários:

RATTU disse...

muito boa reflexao sobre a questao do prazer em produzir.

Cecília disse...

Olá!
Estou pensando em estudar produção cultural, mas não tenho muitas informações sobre a área. Você pode me ajudar (e acredito que, ajudar mais gente interessada)???

O trabalho do produtor cultural envolve mais coisas além da parte "burocrática", por assim dizer, de organizar um evento? O que mais dá pra fazer com um curso de tecnologia nessa área?

Precisa viajar muito? Tem alguma característica de personalidade que vc acha importante para um produtor cultural?

Eu agradeceria muito se vc pudesse dar alguma ajudinha, pra que mais gente como eu (que talvez tenha um pouco de dúvidas ao escolher trabalhar com isso) possa conhecer melhor a profissão.

'brigada!!!
Cecília Montrazzi