quinta-feira, setembro 08, 2011

Conhecimento livre: o conceito de produção cultural é abrangente


Conheça o trabalho do artista Edgar Mueller (a film by Alessio Cuomo and Sander de Nooij produced by ColdSun Productions)


Por Alê Barreto*
alebarreto@gmail.com


Dando continuidade ao post de ontem, aproveitei para atualizar as informações sobre produção cultural em língua portuguesa, na Wikipedia.

Vejamos hoje o conceito aberto de produção cultural.

O conceito de produção cultural será inicialmente pensado nesta definição partindo da noção mais básica: a constituição da palavra.

Segundo o dicionário Michaellis, a palavra produção pode significar coisa produzida naturalmente ou pelo trabalho, obra literária ou artística ou ato ou efeito de produzir. A palavra cultural é referente a cultura.

Desta forma, produção cultural pode fazer referência a um conjunto de coisas ou obras artísticas realizadas por indivíduos, sozinhos ou em grupo, num determinado espaço e tempo, a um conjunto de produtos ou serviços culturais realizados por indíviduos, sozinhos ou em grupo, num determinado espaço e tempo ou produzir uma ação cultural.

A existência da palavra cultural faz com que produção cultural assuma uma diversidade de significados. Se considerarmos que produção cultural pode ser produção de cultura, tanto seu significado enquanto "coisa" quanto "ato de produzir" assumirão sentidos mais amplos do que apenas obras artísticas.

No Brasil, ainda não há pesquisa sobre a origem do aparecimento desta expressão. Acredita-se que iniciou com o desenvolvimento do teatro, rádio, televisão e cinema, atividades em que a divisão do trabalho contempla a função de se organizar (pré-produção, produção e pós-produção) uma atividade artística e/ou cultural.

A expressão produção cultural tornou-se mais conhecida no Brasil no final da década de 80 e ganhou força nos anos 90, com o surgimento das leis de incentivo à cultura.

Produção cultural também tornou-se a denominação utilizada no Brasil para cursos livres, cursos técnicos, cursos de graduação e pós-graduações, presenciais ou de ensino à distância (EAD), que difundem conhecimentos relacionados a organização, administração e gestão de atividades culturais. Por atividades culturais entenda-se o conceito amplo, que vai além das definições clássicas de cultura e arte.

O conceito amplo de atividades culturais abrange:

- ações praticadas pelo Estado, iniciativa privada, Terceiro Setor ou indíviduos, nas dimensões simbólica, social, econômica e criativa;

- ações cuja fruição pode ser gratuita, mediante pagamento ou mista (uma parte gratuita e outra parte paga);

- atividades realizadas nos setores de turismo, eventos, entretenimento, tecnologia de informação (desenvolvimento de software), games, comunicação, marketing, mercado editorial, publicidade, gastronomia, moda, design, novas tecnologias de informação e comunicação (hardware e software para conexão com internet) e a internet (como produto e/ou meio).

Por tratar-se de um conhecimento novo no mundo, há uma tensão constante sobre "o que é" e "o que não é" produção cultural, similar a discussão sobre "o que é cultura" e "o que não é cultura" ou "o que é arte" e "o que não é arte.


Processo de formação da profissão no Brasil

Preocupados com a ausência de políticas de formação de pessoal em organização cultural (noção que também abrange a formação de pessoas para produção cultural), pesquisadores do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia, sob orientação do Prof. Dr. Antonio Albino Canelas Rubim, realizaram um importante mapeamento sobre a formação em organização cultural no Brasil, disponibilizado de forma livre em 2010 através do site http://www.organizacaocultural.ufba.br/

Outro importante estudo é "Profissionalização da organização da cultura no Brasil: uma análise da formação em produção, gestão e políticas culturais", tese de doutorado de Leonardo Figueiredo Costa, concluída em 2011.

Para pesquisar esta tese no Sistema de Bibliotecas da UFBA:

Costa, Leonardo Figueiredo. Profissionalização da organização da cultura no Brasil: uma análise da formação em produção, gestão e políticas culturais / Leonardo Figueiredo Costa. - 2011.


Campos de atuação profissional


Produção cultural no Brasil tem sido bastante associada a atividade profissional de:

- pessoas que atuam em eventos e entretenimento;

- pessoas que fazem projetos para leis de incentivo;

- pessoas que fizeram cursos de produção cultural;

- pessoas que organizam atividades de cultura como recurso em programas, projetos e ações de responsabilidade sócio-ambiental, educação, saúde, esporte, promoção da cidadania, direitos humanos e bem estar;

- pessoas que realizam atividades de organização, administração e gestão de espaços culturais;

- pessoas que organizam atividades culturais em pontos de cultura;

- pessoas que realizam atividades intermediárias nas diferentes fases da cadeia produtiva da cultura (produção, distribuição, comercialização e consumo de bens e serviços culturais);

- pessoas que produzem conteúdo ou atuam em atividades intermediárias nas diferentes fases da cadeia produtiva da cultura digital (produção, distribuição, comercialização e consumo de bens e serviços culturais digitais).

Uma boa noção sobre a diversidade do campo profissional pode ser percebida no conteúdo disponibilizado no site do projeto "Produção Cultural no Brasil" http://www.producaocultural.org.br/


Exemplos de atividades de produção cultural

Atividades de organização de shows, exposições de arte, montagens teatrais, stand-up comedy, espetáculos de dança, encontros literários, exibição de filmes, programas de TV, programas de rádio, produção de conteúdo para blogs, produção de conteúdo para internet, projetos que contemplem arquitetura, patrimônio, artes, antiquários, artesanato, design, moda, cinema, música, artes híbridas, artes performáticas.

Organização e gestão de carreiras artísticas (também conhecidas como carreiras criativas), gestão de indústrias criativas e pesquisas nos campos da economia da cultura e de políticas públicas de cultura podem ser realizadas por pessoas com formação em produção cultural.


Fonte: conceito elaborado e disponibilizado de forma livre na Wikipedia por Alê Barreto a partir do Dicionário Michaelis da editora Melhoramentos, Dicionário Crítico de Política Cultural de Teixeira Coelho, Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011 de Cristiane Olivieri e Edson Natale, Projeto Produção Cultural no Brasil (http://www.producaocultural.org.br/) Blog "Produtor Cultural Independente" (www.produtorindependente.com) de Alê Barreto, Livro "O Avesso da Cena - Notas sobre produção e gestão cultural" de Romulo Avelar, Mapeamento sobre a formação em organização cultural no Brasil (http://www.organizacaocultural.ufba.br) e a tese "Profissionalização da organização da cultura no Brasil: uma análise da formação em produção, gestão e políticas culturais" de Leonardo Figueiredo Costa.

Veja também "produtor cultural".


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* Alê Barreto é um administrador e produtor cultural independente. Trabalha com foco na organização e qualificação dos profissionais de arte, comunicação, cultura e entretenimento. É autor do livro Aprenda a Organizar um Show, primeira publicação livre na internet em língua portuguesa sobre produção de shows, escreve para o site Overmundo e para a revista Fazer e Vender Cultura.

Cursa o MBA em Gestão Cultural no Programa de Estudos Culturais e Sociais da Universidade Cândido Mendes. Ministra cursos, oficinas, workshops e palestras. Presta consultoria e assessoria para artistas, produtores, empres e projetos. Reside no Rio de Janeiro.

+ 55 21 7627-0690 (Claro)


* O blog Produtor Cultural Independente está em atividade desde 2006. Possui mais 700 posts e links de seus conteúdos são enviados para 4.808 pessoas através de redes sociais. Faz parte da Rede Produtor Cultural Independente, uma rede de conteúdos composta pelos blogs Produtor Independente (592 seguidores), Blog do Alê Barreto (55 seguidores), Aprenda a Organizar um Show (32 seguidores) Aprenda a Produzir um Artista (16 seguidores), Encantadoras Mulheres (13 seguidores) e Aprenda a divulgar seu evento (2 seguidores).



Alê Barreto é cliente do Itaú.

Um comentário:

Mil Lago disse...

Olá Ale! Tudo bom?
Interessante ver como o nome "produtor cultural"se torna mais amplo do que a própria atividade dele em si e onde ele se situa no organograma de uma atividade cultural. Esse nome é sem dúvidas o termo chefe para tudo relacionado ao desenvolvimento do produto cultural, tudo em volta da arte ou projeto em si.
Quando entrei para a produção cultural, ha 12 anos atrás, lembro que achei informações sobre a profissão em um desses livros para alunos que vão prestar vestibular, livro de aptidão profissional. Porém de uns 2 anos pra cá quando vou me colocar profissionalmente não utilizo mais "produtor", pois além desse termo abraçar todas as atividades ele também se coloca num organograma com uma função específica. Veja bem, eu produzi por mais de 10 anos (hoje tenho 31) grupos de teatros, participei de festivais por todo o BR (trabalhei no Grupo Galpão) e meus últimos trabalhos foram com eventos empresariais. Porém tenho direcionado cada vez mais minhas atividades para o campo da gestão. Nesse caso eu defino gestão cultural ou gestão de eventos a coordenação de um planejamento do produto cultural. Nele eu tenho o produtor executivo - esse termo que está ligado ao "produtor cultural", o adminsitrador financeiro, a assessoria de imprensa (acho que ainda hoje temos muita falha nesse campo para a cultura), etc. O último trabalho que realizei foi agora em julho, coordenei a logística do Savassi Festival (Festival de jazz em Belo Horizonte, RJ, SP e JDF) - estou fora do BR por 2 anos. Eu vejo cada vez mais dentro desse termo "produtor cultural" a necessidade de se trabalhar com funções especializadas e específicas. Acho que é importante tanto outras áreas se especializarem mais na produção cultural quanto o produtor buscar seu foco de trabalho. Acredito que o produtor 'faz tudo' está cada vez mais obsoleto - como o termo geral abrange. Eu não trabalho mais com um produtor faz tudo para prestar contas numa lei de incentivo, por exemplo. Acho mais adequado um contador ou administrador se especializar no campo da cultura e desenvolver essa atividade com todos os requerimentos necessários. Mas para isso ele também tem que buscar sua especialização na cultura, para entender todos os processos que diferenciam de outras atividades não artísticas.
Bem, só pensamento. Grande abraço e tudo de bom!