quarta-feira, março 06, 2013

O que é produção cultural? O que faz um produtor cultural? Pequeno guia do estudante




Por Alê Barreto
alebarreto@gmail.com


Se tem uma coisa que muita gente procura é um texto resumido explicando o que é produção cultural e o que faz um produtor cultural.


Preparei este pequeno guia do estudante com noções básicas. Acredito que vai auxiliar na busca de muitas pessoas.


Ficaria muito feliz se após ler você fizesse comentários, sugestões, etc. Sua participação é importante.



Pequeno guia do estudante do produtor cultural independente




1 - O que é produção cultural?


1.1 Conceito

Antes de mais nada, é importante você relembrar o que é um conceito.

Um conceito é a formulação de uma ideia por meio de palavras. Desta forma, os conceitos não são verdades absolutas. Os conceitos são formas de pensar e estão sempre em disputa.

Há inúmeras disputas em torno do conceito de produção cultural. Abaixo seguem alguns conceitos que ajudei a construir e conceitos que considero muito relevantes.


1.1.1 Conceito formulado pelo Produtor Cultural Independente e publicado na Wikipédia

O conceito de produção cultural será inicialmente pensado nesta definição partindo da noção mais básica: a constituição da palavra.

Segundo o dicionário Michaellis, a palavra produção pode significar coisa produzida naturalmente ou pelo trabalho, obra literária ou artística ou ato ou efeito de produzir. A palavra cultural é referente a cultura.

Desta forma, produção cultural pode fazer referência a um conjunto de coisas ou obras artísticas realizadas por indivíduos, sozinhos ou em grupo, num determinado espaço e tempo, a um conjunto de produtos ou serviços culturais realizados por indíviduos, sozinhos ou em grupo, num determinado espaço e tempo ou produzir uma ação cultural.

A existência da palavra cultural faz com que produção cultural assuma uma diversidade de significados. Se considerarmos que produção cultural pode ser produção de cultura, tanto seu significado enquanto "coisa" quanto "ato de produzir" assumirão sentidos mais amplos do que apenas obras artísticas.

No Brasil, ainda não há pesquisa sobre a origem do aparecimento desta expressão. Acredita-se que iniciou com o desenvolvimento do teatro, rádio, televisão e cinema, atividades em que a divisão do trabalho contempla a função de se organizar (pré-produção, produção e pós-produção) uma atividade artística e/ou cultural.

A expressão produção cultural tornou-se mais conhecida no Brasil no final da década de 80 e ganhou força nos anos 90, com o surgimento das leis de incentivo à cultura.

Produção cultural também tornou-se a denominação utilizada no Brasil para cursos livres, cursos técnicos, cursos de graduação e pós-graduações, presenciais ou de ensino à distância (EAD), que difundem conhecimentos relacionados a organização, administração e gestão deatividades culturais. Por atividades culturais entenda-se o conceito amplo, que vai além das definições clássicas de cultura e arte.

O conceito amplo de atividades culturais abrange:

- ações praticadas pelo Estado, iniciativa privada, Terceiro Setor ou indíviduos, nas dimensões simbólica, social, econômica e criativa;

- ações cuja fruição pode ser gratuita, mediante pagamento ou mista (uma parte gratuita e outra parte paga);

- atividades realizadas nos setores de turismo, eventos, entretenimento, tecnologia de informação (desenvolvimento de software), games, comunicação, marketing, mercado editorial, publicidade, gastronomia, moda, design, novas tecnologias de informação e comunicação (hardware e software para conexão com internet) e a internet (como produto e/ou meio).

Por tratar-se de um conhecimento novo no mundo, há uma tensão constante sobre "o que é" e "o que não é" produção cultural, similar a discussão sobre "o que é cultura" e "o que não é cultura" ou "o que é arte" e "o que não é arte.


1.1.2 Conceito formulado pelo produtor Romulo Avelar


No capítulo II do livro "O Avesso da Cena: Notas sobre Produção e Gestão Cultural" de Romulo Avelar, lançado pela DUO Editorial, você irá encontrar muitas informações importantes sobre o conceito de produção e gestão cultural.




2 - O que faz um produtor cultural? Campos de atuação profissional.

Produção cultural no Brasil tem sido bastante associada a atuação de pessoas que atuam na formatação de projetos para leis de incentivo, editais públicos e programas privados. Isso muitas vezes é o direcionamento de alguns cursos de graduação e pós-graduação. Contudo, os campos de atuação profissional são muitos.

Produção cultural é uma atividade que pode estar associada a:

- pessoas que atuam em eventos e entretenimento;

- pessoas que fazem projetos para leis de incentivo;

- pessoas que fizeram cursos de produção cultural;

- pessoas que organizam atividades de cultura como recurso em programas, projetos e ações de responsabilidade sócio-ambiental, educação, saúde, esporte, promoção da cidadania, direitos humanos e bem estar;

- pessoas que realizam atividades de organização, administração e gestão de espaços culturais;

- pessoas que organizam atividades culturais em pontos de cultura;

- pessoas que realizam atividades intermediárias nas diferentes fases da cadeia produtiva da cultura (produção, distribuição, comercialização e consumo de bens e serviços culturais);

- pessoas que produzem conteúdo ou atuam em atividades intermediárias nas diferentes fases da cadeia produtiva da cultura digital (produção, distribuição, comercialização e consumo de bens e serviços culturais digitais).




3 - Exemplos de atividades de produção cultural

Atividades de organização de shows, exposições de arte, montagens teatrais, stand-up comedy, espetáculos de dança, encontros literários, exibição de filmes, programas de TV, programas de rádio, produção de conteúdo para blogs, produção de conteúdo para internet, projetos que contemplem arquitetura, patrimônio, artes, antiquários, artesanato, design, moda, cinema, música, artes híbridas, artes performáticas.

Organização e gestão de carreiras artísticas (também conhecidas como carreiras criativas), gestão de indústrias criativas e pesquisas nos campos da economia da cultura e de políticas públicas de cultura podem ser realizadas por pessoas com formação em produção cultural.




4 - Perfil profissional de um produtor cultural


Este é um ponto extremamente delicado. Digo isso porque temos hoje na web muito mais relatos, depoimentos e opiniões de pessoas que olham a produção cultural como uma profissão "pública", como se o produtor cultural somente lidasse com recursos públicos.

É importante lembrar que a profissão de produtor não é tão nova quanto parece. Ela já existia antes das Leis de Incentivo nos anos 90. O que aconteceu é que com as leis de incentivo e a criação dos primeiros cursos de graduação e pós-graduação, a função de "produtor" passou a ser chamada de "produtor cultural". Sobre isso, leia o artigo "O campo acadêmico da produção cultural - história e características", do professor Leandro José Mendonça, publicado no livro "Políticas culturais : pesquisa e formação", organizado por Lia Calabre e lançado pelo Instituto Itaú Cultural e Fundação Casa de Rui Barbosa, em 2012.


4.1 Uma opinião da iniciativa privada

Voz da Experiência: Para Tatiana Zaccaro um bom produtor cultural tem que ser desinibido, matéria de Lauro Neto publicada na seção de educação do Jornal O Globo. Tatiana Zaccaro é graduada em jornalismo com MBA em Marketing e gerente de negócios da Fagga Eventos, empresa que organizou a XIV Bienal Internacional do Rio de Janeiro.


4.2 Entrevistas e vídeos do projeto Produção Cultural no Brasil (organizações públicas e iniciativa privada)

Uma amostra de 100 pessoas entrevistadas que traz relatos sobre como algumas pessoas percebem a atividade de produção cultural no Brasil.

Projeto executado pela Beijo Técnico Produções Artísticas, Garapa Coletivo Multimídia e FLi Multimídia, em parceria com a Azougue Editorial. Uma realização da Casa da Cultura Digital e Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, com orçamento obtido via Cinemateca Brasileira e Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC).




4.3 Pesquisa com produtores que encaminham projetos para Lei Rouanet


Foi publicada no livro do projeto Panorama Setorial da Cultura Brasileira, de autoria de Gisele Jordão e Renata R. Allucci. 

O universo pesquisado considerou produtores culturais proponentes de projetos enquadrados na Lei Rouanet, inscritos nos mecanismos Mecenato, Fundo Nacional de Cultura (FNC) e Recurso do Tesouro; com projetos apresentados entre 2007 e 2011; composto por pessoas físicas e jurídicas. Tais critérios demonstraram um universo de 14.853 nomes no território nacional. A base de dados da pesquisa foi construída por meio das informações do Salic.net durante o período de 7 a 29 de abril de 2011. Ao todo, foram organizados em base 7.000 nomes, considerados como o universo viável da pesquisa, ou seja, aquele que viabilizou o sorteio da amostra.




5 - Panorama do mercado

Matéria "O produtor cultural do século 21" no Blog Acesso do Instituto Votorantin, texto da jornalista Priscila Fernandes.

Também vale ler o conteúdo da pesquisa do projeto Panorama Setorial da Cultura Brasileira, lembrando que o recorte da mesma somente abrange produtores culturais proponentes de projetos enquadrados na Lei Rouanet.



6 - Quem mais contrata?


Empresas de eventos

Empresas de feiras e entretenimento

Empresas que fazem produção de projetos via leis de incentivo à cultura

Pessoas e empresas que organizam atividades de cultura como recurso em programas, projetos e ações de responsabilidade sócio-ambiental, educação, saúde, esporte, promoção da cidadania, direitos humanos e bem estar

Artistas, empresários e agentes artísticos

Espaços culturais


Aqui vale lembrar que boas pistas podem ser encontradas nos recentes trabalhos produzidos no Brasil sobre Economia da Cultura e Economia Criativa.



7 - Estimativa de remuneração


7.1 Salário inicial

R$ 1.800,00 (20 horas semanais)
(fonte: prof. Luiz Guilherme Vergara, da UFF, no Guia do Estudante)


7.2 Salário para profissionais com experiência

de R$ 8.000,00 a R$ 15.000,00
(fonte: Tatiana Zaccaro, graduada em jornalismo com MBA em Marketing e gerente de negócios da Fagga Eventos na matéria Voz da Experiência: Para Tatiana Zaccaro um bom produtor cultural tem que ser desinibido)


Comentário sobre estas informações de salário: a maior parte dos produtores culturais no Brasil não trabalha formalizado, seja com carteira assinada, seja com empresa registrada.

Um percentual muito pequeno de profissionais ganha acima de R$ 5.000,00 por mês.


8 - Onde estudar?

9 - Processo de formação da profissão no Brasil

Preocupados com a ausência de políticas de formação de pessoal em organização cultural (noção que também abrange a formação de pessoas para produção cultural), pesquisadores do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia, sob orientação do Prof. Dr. Antonio Albino Canelas Rubim, realizaram um importante mapeamento sobre a formação em organização cultural no Brasil, disponibilizado de forma livre em 2010 através do site http://www.organizacaocultural.ufba.br/

Outro importante estudo é "Profissionalização da organização da cultura no Brasil: uma análise da formação em produção, gestão e políticas culturais", tese de doutorado de Leonardo Figueiredo Costa, concluída em 2011.

Para pesquisar esta tese no Sistema de Bibliotecas da UFBA:

Costa, Leonardo Figueiredo. Profissionalização da organização da cultura no Brasil: uma análise da formação em produção, gestão e políticas culturais / Leonardo Figueiredo Costa. - 2011.

A formação do produtor cultural foi discutida também em 2011 e 2012 no Rio de Janeiro em dois encontros promovidos por alunos do curso tecnológico de produção cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

Em 2013 o 3º Encontro Nacional de Produção Cultural ocorreu na Universidade Federal da Bahia. Acesse o site do encontro, a página oficial do facebook e o blog do evento.


10 - Reconhecimento da profissão pelo Ministério do Trabalho no Brasil

Em 2013 a profissão de produtor cultural passou a ser reconhecida no Brasil pelo Ministério do Trabalho, que incluiu a mesma na CBO – Classificação Brasileira de Ocupações. A CBO é uma espécie de dicionário das profissões no Brasil. Neste guia estão registradas 2.558 atividades. A entrada na CBO não interfere em questões trabalhistas como jornada de trabalho ou piso salarial.

Fonte: http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2013/02/ministerio-do-trabalho-passa-reconhecer-59-novas-profissoes.html

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*Alexandre Barreto é um profissional multicarreira. É administrador com ênfase em marketing e produtor, graduado pela Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalhou em grandes empresas, de diferentes segmentos (saiba mais).

Mora na cidade do Rio de Janeiro. É aluno do Programa de Estudos Culturais e Sociais da Universidade Cândido Mendes (RJ), onde cursa a pós-graduação MBA em Gestão Cultural.

Ministra aulas sobre produção e gestão cultural em projetos do Itaú Cultural. Faz parte da equipe de articuladores do projeto Solos Culturais desenvolvido pelo Observatório de Favelas em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro, com patrocínio da Petrobras e atuou recentemente no projeto Rio em Rede, uma parceria entre o Observatório de Favelas e o Instituto Avon.

Seu foco é contribuir para a organização de profissionais, instituições e do setor cultural.

(21) 7627-0690 alebarreto@gmail.com

2 comentários:

Larissa Nespoli disse...

Estou pensando em fazer faculdade de produção cultural e você está me ajudando bastante em decidir!

maria clara de paula disse...

Gostei do post. Muito interessante e realmente da uma boa visão sobre a profissão, estou decidida em fazer produção mas ainda tenho dúvidas em alguns pontos e blogs como esse tem dado uma boa ajuda!!